A guerra aqui tão perto – Monica Hesse

44315526._SY475_.jpgSINOPSE: Uma história imperdível, em tempo de guerra, perfeita para os fãs de clássicos como O Rapaz do Pijama às Riscas e A Rapariga Que Roubava Livros.

Haruko e Margot não se conhecem. Vivem em pontos distantes dos EUA e nenhuma das duas tem qualquer culpa de os seus países de origem estarem em guerra com aquele onde agora vivem. A família de Haruko é japonesa. A família de Margot é alemã.

Estamos em 1944. A Segunda Guerra Mundial está no seu auge e estende-se a quase todos os continentes e mares, combate-se tanto na Europa como no Pacífico. À semelhança de outras famílias refugiadas, também as de Haruko e Margot são forçadas a recomeçar as suas vidas num campo do Texas, onde os acusados de conspirar contra a América são «convidados» a residir.

Com as suas vidas a colapsar, Haruko e Margot encontram conforto uma na outra, e depositam toda a esperança na sua amizade secreta.

Mas será que ali, numa prisão que se suspeita repleta de espiões, ainda é possível encontrar a felicidade?

Uma história delicada, mas poderosa. A prova de que a família, a amizade e o amor mantêm a sua importância vital até nos piores momentos.

Autora vencedora do Edgar Award for Best Young Adult, Best Book for Teens (New York Public Library), Best Young Adult Book (Booklist), entre outros prémios.

OPINIÃO: Uma conversa entre amigos leitores:

“- Terminei agora um thriller e não sei o que ler de seguida.

– Eu estou com um de Ficção Científica, queres que te empreste? Estou mesmo a terminar.

– Não. Não estou virado para isso, agora. Talvez pegue num da 2ª Guerra Mundial.”

Perceberam onde quis chegar com este diálogo?

Este livro encaixa-se num facto histórico que se transformou num género literário. São tantos, mas tantos livros sobre o Holocausto, que lhe perdemos a conta. Porém, nunca os achei demasiados, apesar de já se perceber uma disseminação da opinião oposta pelas redes sociais. Não me parece oportuno atenuar a publicação destas histórias, principalmente, nos dias que correm…

Bem, já li sobre campos de concentração, sobre crianças judias, crianças alemãs que não compreendiam o regime nazi; já me debrucei sobre o Beco de Varsóvia, sobre os soldados alemães. Pensava que eu que já conhecia todos os contornos que este GÉNERO tem para oferecer (nunca me cansando e sempre me emocionando). Todos são revoltantes, todos são únicos à sua maneira. Ficção, biografia ou autobiografia, não importa. É importante relembrar ao mundo o quão odioso pode o ser humano ser para com os seus iguais.

Tendo em conta esta contextualização, era óbvio que o meu pensamento estava convicto de que não ia “sacar” nada de novo no que diz respeito a informação, aprendizagem histórica, que só ia permitir ao coração chorar um pouco pelo mundo que tivemos e que podemos ter a qualquer momento.

Estava muito enganada!

“A guerra aqui tão perto” liberta-se da Europa e leva-nos a viajar para o outro lado do oceano, para o lado da “razão”. Um dia, ouvi, li ou assisti (já não me recordo qual foi a fonte) alguém dizer que as guerras têm dois lados e que os vencedores têm o privilégio de narrar os acontecimentos com os floreados que lhes aprouver. Não foi bem isto, não estou a ser literal, mas era esta a ideia. Este livro vem provar essa mesma teoria, porque em tantos anos em contacto com relatos sobre esta época, nunca tinha ouvido falar destes campos no sul dos EUA e das injustiças que foram praticadas para com gente de bem.

Imaginem-se só, sobretudo nos dias de hoje em que a globalização espirrou gentes de todas as nacionalidades para todos os “cantos” do mundo, a serem, de repente, privados da vossa liberdade porque o vosso país entrou em guerra com o país que habitam. Pior! O país que vos aprisiona é o único que conheceram, é o país onde nasceram. Quem é o português que não tem e/ou não conhece i/emigrantes? 

Claro que, na altura, ninguém falava em aprisionamento, clausura, falta de liberdade, etc. Supostamente… ali ninguém estava preso. Porém, onde há arame farpado a delinear todo um campo e soldados armados posicionados em torres de vigia… Lá por não se rotular as ações, não quer dizer que estas não se concretizem como sendo o que realmente são. Chama-se a isso, talvez, hipocrisia?

O que dá um ar mais “belo” a estas histórias tão cruéis é quando estas são narradas por crianças. Aquele toque inocente, aquela confusão que se lhes instala perante certas tomadas de decisão e o entendimento que lhes assoma em conta-gotas e as vai obrigando a amadurecer cedo demais.

Esta história é ficção. Porém, estes campos existiram realmente. Eu mesma os investiguei posteriormente à leitura e deparei-me com as imagens daquilo a que os EUA chamavam de recolocação. São campos de concentração. (Ponto Final) Podia não haver lugar às mesmas atrocidades dos que estavam na posse do regime nazi, mas não deixavam de condicionar a liberdade das pessoas que lá viviam.

Quem é que lá vivia? Ora, de um lado, os japoneses, do outro, os alemães. Desta feita, o próprio povo traçou uma linha geográfica dentro dos limites do campo que devia ser intransponível. As duas culturas convergiam e evitavam-se a todo o custo.

É aqui que entram as nossas protagonistas, uma de cada nacionalidade. Cada uma das meninas vai contando como é viver do seu lado do campo, como é ser descendente do respetivo povo que está do lado “errado” da guerra. A amizade delas é agridoce e denota-se também ali algo mais, que seria severamente punido pelas famílias de ambas.

Os retratos pintados pelas adolescentes são verosímeis e pormenorizados o suficiente para que entendamos a dificuldade de “existir” naquelas condições numa altura em que o medo se instala pelo mundo, trazendo na sua sombra a desconfiança e, consequentemente, ações que aos olhos de hoje se mostram reprováveis. (Pelo menos assim quero acreditar, que a atualidade não aceitaria estas decisões. Contudo, cada vez duvido mais dessa “certeza”).

Se querem ler algo diferente sobre este  GÉNERO, este livro trará conteúdo novo e diferente para que possam refletir. E, por favor, não sejam apologistas do BASTA de escrever sobre este tema, porque é muito importante que se globalize, outra vez, a repulsa pelo que já foi um dia feito aos nossos iguais.

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Crime, disse o livro – Anthony Horowitz… por Andreia Silva

crime disse o livro.jpgSINOPSE: ABSORVENTE e VICIANTE; e com um final verdadeiramente prodigioso!

Existem vários mistérios por resolver dentro das páginas deste livro. Tudo começa quando Susan Ryeland se senta para ler o manuscrito do autor mais vendido da editora onde trabalha. Porém, a narrativa termina abruptamente no ponto em que o detetive da história está prestes a revelar o assassino, levando por isso Susan a procurar os capítulos perdidos. Mas este é apenas o ponto de partida de um dos mistérios…

Extraordinariamente bem concebido e bem escrito, em Crime, disse o livro encontramos duas histórias que correm em paralelo, personagens interessantes e autênticas, tramas sólidas, inteligentes e bem estruturadas, várias reviravoltas e, por fim, um desenlace absolutamente surpreendente.

E se um mistério dentro de outro mistério significa o dobro da adrenalina, para os fãs do género este livro traz também prazer a dobrar. Prepare-se: vai ser difícil pousar o livro!

OPINIÃO: Susan Ryeland trabalha numa editora. Um dia, calha-lhe a missão de ler o manuscrito do autor mais vendido por eles, Alan Conway. Quando o livro acaba de repente, sem um final adequado e com um mistério por resolver (um pesadelo para qualquer leitor que se preze), ela parte em busca dos capítulos finais. Aqui, vai descobrindo um mistério encavalitado noutro.

Logo que entramos, juntamente com a Susan, dentro do manuscrito, sentimo-nos dentro de um livro policial clássico. Fez-me lembrar (poucos, infelizmente) os livros que li da Agatha Christie ou do Sherlock Holmes. Tem toda aquela atmosfera londrina, as personagens que se multiplicam em suspeitos, assassinatos que só se resolvem com um inspetor e sempre aquele constante e bom parceiro.

Gostei muito da forma como o enredo (ou melhor, os enredos!) foi colocado à disposição do leitor. Esta história lê-se como um livro dentro de outro livro e, mesmo que o autor quisesse relacioná-las (o que, de facto conseguiu), elas têm tempos e espaços distintos o que nos dá esta dualidade de livros.

A história torna-se intrigante ao longo da leitura, não havendo oportunidade para pensar em desistir. Todos os personagens do policial, descritos no manuscrito, têm aquela discrepância no discurso que não deixa ao leitor desvendar nada. Ficamos com a mesma dúvida que Susan, como se os olhos dela fossem os nossos.

Penso que o final, apesar de ser mais ou menos surpreendente, acaba por não ter um verdadeiro pico de intensidade. Falta-lhe ali qualquer coisa mais impactante. Algo que me deixasse mesmo de boca aberta a olhar para as páginas.

Na globalidade é um livro extremamente original e diferente. Acaba, por esse motivo, por ser viciante, por ser um tipo de policial que não está dentro daquilo que é escrito na atualidade. A componente do livro que está dentro do livro, o “policial à antiga”, acaba por ser mais giro, por não ter tanto sangue e características forenses, como os mais modernos.

Nada Menos Que Um Milagre – Markus Zusak… por Andreia Silva

44562495._SY475_.jpgSINOPSE: Clay olhou para trás uma última vez antes de mergulhar – de emergir e voltar a mergulhar – rumo a uma ponte, a um passado, a um pai. E nadou nas águas douradas pela luz.

Os cinco irmãos Dunbar vivem – lutando, amando e chorando a morte da mãe – no caos perfeito de uma casa sem adultos. O pai, que os abandonara, acaba de regressar. E tem um pedido surpreendente: algum deles aceita ajudá-lo a construir uma ponte? Clay, um rapaz atormentado por um segredo que esconde há muito, aceita. Mas porque está ele tão devastado? O que o leva a aceitar tão extraordinário desafio?

Esta é a história de um rapaz apanhado numa espiral de sentimentos, um rapaz disposto a destruir tudo o que tem para se tornar na pessoa que precisa de ser. Diante dele, ergue-se a ponte, a visão que irá salvar a sua família – e salvá-lo a ele próprio. Será um milagre e nada menos que isso.

Simultaneamente um enigma existencial e uma busca pela redenção, esta história de cinco irmãos em plena juventude, numa casa sem regras, transborda energia, alegria e emoções. Escrita no estilo inimitável de Markus Zusak, é um tour de force de um autor que conta histórias com o coração.

OPINIÃO: Clay é um dos irmãos Dunbar. Um dia, o pai que os abandonou recruta-o para construir uma ponte. Detentor de um segredo e com a dor da perda dentro dele, Clay aceita. Pode achar-se este resumo excessivamente reduzido, mas é o que se pode dizer sem se contar a história, sem libertar spoilers. 

Markus Zusak é autor de um livro muito popular, que teve direito a uma adaptação ao cinema, “A rapariga que roubava livros”.  Assim, é óbvio que um novo livro viria acompanhado de elevada expetativa. No entanto, a primeira impressão que este livro dá é a de se querer distanciar completamente da outra história. É visível a dificuldade dos leitores com este livro, através das opiniões no Goodreads, dificuldade essa que também experimentei.

Não foi fácil começar esta leitura. O autor utiliza uma forma de narrativa que confunde um pouco, pelo menos até o leitor se adaptar. Sem nunca mencionar a escala temporal, vai descrevendo situações com os vários personagens, tornando difícil entender a história e o percurso que ela vai tomar. A escrita é, de tal forma, enroscada que deixa de ser poética (penso que seria essa a intenção) e torna-se cansativa.

Há um elemento comum em todos os tempos do livro: a noção da família. E mesmo havendo uma mágoa dentro do coração daqueles irmãos, o autor nunca descreve aquele pai como alguém monstruoso ou incapaz de amar. Há sempre a mensagem de que os laços serão sempre maiores do que os ressentimentos. Esta foi uma parte muito bonita.

Apesar de, durante o início, me sentir ligeiramente perdida, acabei por me sentir envolvida na escrita do autor e sentir a beleza de uma homenagem à família e ao amor fraterno.

Todos os personagens foram construídos com a intenção de mostrarem crescimento pessoal e isso está bem presente nas atitudes e nos diálogos de todos eles. Penso que, apesar da forma de escrever ser ligeiramente confusa e de a história ser contada aos bocados, acaba por ter uma mensagem bonita e um desenrolar com lógica.

No final, acabei por achar uma leitura prazerosa, com um enredo contado de forma diferente e que, de alguma forma, acabou por me tocar no coração!

A paciente silenciosa – Alex Michaelides

01040716.jpgSINOPSE: Alice Berenson é uma pintora britânica, jovem e famosa, que vive numa casa sublime nos arredores de Londres com o marido, Gabriel, um conhecido fotógrafo de moda. A vida de ambos parece perfeita. Mas uma noite, quando ele chega a casa depois de uma sessão fotográfica, Alicia mata-o com cinco tiros. E nunca mais diz uma palavra.

A recusa de Alicia em falar e dar qualquer tipo de explicação sobre a tragédia, transforma-se num mistério que prende a imaginação da opinião pública, e confere a Alicia uma notoriedade sem precedentes. O preço dos seus trabalhos artísticos dispara e ela, a paciente silenciosa, é alvo de um mediatismo implacável. Para evitar isso, é conduzida para uma unidade forense de alta segurança no norte de Londres.

Theo Faber, um psicoterapeuta criminal, espera há muito pela oportunidade de trabalhar com Alicia. A sua determinação em convencê-la a falar e a desvendar as razões misteriosas que motivaram o assassínio do marido leva-o por um caminho tortuoso, numa busca pela verdade que ameaça consumi-lo…

OPINIÃO: Ok, Sr. Livro, fintou-me. Fui fintada totalmente! Porém, não se sinta com muito mérito porque o meu cérebro ainda está a sofrer de Mommesia (uma certa limitação mental, sobretudo no que diz respeito à memória, de que sofrem as mães até aos 6/12 meses de vida do bebé). Tenho desculpa para ter-me caído a ficha tão tarde, aliás, foi no exato momento em que o autor assim o quis. Shame on me que não cheguei mesmo lá!

Agora, fora de brincadeiras. O livro está mesmo muito bem conseguido. Os capítulos são curtos a escrita é de fácil leitura. Está escrito na primeira pessoa e carregado de diálogos verosímeis que transparecem a personalidade dos personagens.

Alicia alvejou o marido, com 5 tiros na cabeça, e perdeu a voz. Declarada como inimputável por insanidade, é institucionalizada. Passam 6 anos até que um terapeuta, fascinado pela paciente silenciosa, decide dar tudo para que ela recupere a voz.

Ao longo da história, vamos conhecendo outros intervenientes que num momento qualquer da vida de Alicia nos soam desagradáveis. Queremos, a todo o custo, acreditar na inocência de Alicia. Mas é difícil! Além de não falar, Alicia tem comportamentos agressivos, psicóticos. A paciente chega mesmo a agredir outros pacientes e a ser extremamente perigosa para com o terapeuta que a quer ajudar.

Mas bate tudo tão certo no final… Oh, como tudo se encaixa na perfeição!

O terapeuta, Theo, é “A” voz da narrativa. Contracena com Alicia e acompanhamos a sua “obsessão” para com este caso, mas também nos é relatado o outro lado da sua vida, a pessoal. Assistimos a como ele conheceu a sua esposa, percebemos o quanto ele a ama. Por outro lado, também temos vislumbres dos seus problemas, dos seus pensamentos mais sombrios, da sua demanda em manter a clareza de pensamentos, a luta que trava para não se deixar levar por suspeitas, para uma dor que poderá deitá-lo abaixo. O terapeuta é, assim, humanizado, conferindo um caráter mais verosímil à história.

Então, lemos este livro assim, em duas partes, com capítulos intercalados entre o caso Alicia e o dia-a-dia de Theo.

Com o fluir da leitura, a ansiedade em descobrir o que se passou cresce. Não queremos que seja Alicia a culpada, porque seria muito óbvio! Cheguei a pensar: vão inventar aqui qualquer desculpa para ela ter perdido a cabeça e vai ser assim que vai acabar o livro. E isso vai desiludir-me… Ela amava Gabriel. Ela amava-o tanto! É-nos dito muitas vezes. Será que era um amor doentio? Era isso? Isso não seria, por si só, muito original… Contudo, não há um “por si só”. Surpreendeu-me. Tal como disse no início, foi-me feita uma rasteira e caí de rabo no chão. Gostei! Gostei muito!

O senão está nas últimas páginas, não são muito esclarecedoras (ou sou mesmo eu que ando meia burrinha) e no facto de ter estado sempre na expetativa de ver mais passagens de Alicia e dos outros pacientes. O autor é brilhante a descrever a loucura e teria tido mais crédito se apostasse mais nesses momentos.

Leiam e digam-me se chegaram lá antes de ser revelado o veredicto. Vá! É um desafio!

Eleanor&Park – Rainbow Rowell

Capa_Eleanor_e_Park_Bolso.aiSINOPSE: Dois inadaptados. Um amor extraordinário.

Eleanor… é uma miúda nova na escola, vinda de outra cidade. A sua vida familiar é um caos; sendo roliça e ruiva, e com a sua forma estranha de vestir, atrai a atenção de todos em seu redor, nem sempre pelos melhores motivos.

Park… é um rapaz meio coreano. Não é propriamente popular, mas vestido de negro e sempre isolado nos seus fones e livros, conseguiu tornar-se invisível. Tudo começa a mudar quando Park aceita que Eleanor se sente ao seu lado no autocarro da escola.

A princípio nem sequer se falam, mas pouco a pouco nasce uma genuína relação de amizade e cumplicidade que mudará as suas vidas. E contra o mundo, o amor aparece. Porque o amor é um superpoder.

OPINIÃO: Eleanor & Park é um livro muito amado pelos leitores. A autora, Rainbow Rowell, tem outros livros publicados, também em Portugal, mas parece-me que há um carinho especial dos fãs para com este casal tão atípico. Com isto, é claro que entrei na leitura cheia de expectativas. Basta sondar o Goodreads, as opiniões e o tão agradável rating de 4,08, para que estas teimem em se filtrar mesmo que as queiramos baixar para não correr o risco da desilusão. Infelizmente, não se tratando propriamente de desilusão, o livro não me encheu as medidas, não era o que eu estava à espera.

Eleanor & Park explora o primeiro amor. A história está carregada de momentos ternurentos, gestos inocentes, pequenos passos tímidos para chegar ao outro. É, de facto, um livro fofinho.

Park é um rapaz diferente, mas com uma personalidade vincada. Por mais que ele se veja como tal, que insista em se deslocar para esse patamar, Park não é um outsider. Há um certo respeito por ele, pela sua postura séria e pacata. Fez-me lembrar um pouco a personagem Clay do “Treze razões”. É muito fácil simpatizar com Park e desejar que os nossos filhos sejam como ele: donos e seguros de si mesmos.

Já Eleanor é outra história. A vida de Eleanor não é fácil. Foi este lado mais cruel, mais duro, que me fez ir em frente na leitura. Não sou fã de histórias românticas, sobretudo se tudo for belo, pelo que perceber que o livro tinha algo mais a oferecer foi uma lufada de ar fresco.

A vida de Eleanor não é fácil. A jovem vive com a mãe, com o padrasto e com os irmãos mais pequenos. A casa é minúscula e a presença do padrasto é gigante. Aqui, o livro explora uma realidade dura de pobreza, de maus tratos psicológicos e físicos, de inocência perdida, de medo e de vergonha. Eleanor concentra-se em ser invisível em casa, por receio, pela fraca da mãe que vai permitindo que o monstro maltrate os seus filhos e a ela mesma. Esse manto acompanha-a na rua, mas desta vez por vergonha. Porém, Park vai despindo este escudo da jovem aos poucos e mostrando-lhe que a vida familiar, o amor, não é algo a que só alguns têm direito.

É um livro que se enquadra muito bem para uma faixa etária mais jovem. Consigo imaginar-me a recomendá-lo vivamente a adolescentes de 14, 16 anos e a ter a certeza de que iriam desfrutar da leitura.

Quanto a mim, não foi a primeira vez que me senti defraudada numa leitura. Acontece-me com John Green também (exceto com “A culpa é das estrelas”). Sinto que estou no embalo, a caminhar para revelações, a aguardar o momento em que as emoções virão ao topo, em que me irei chocar, chorar, emocionar, whatever! Contudo, isto é um YA, e há um refreio constante ao longo da narrativa, nunca chegando a atingir um climax satisfatório. Sinto que estes livros terminam sem terem realmente um fim. Mas não será mesmo assim a vida? Apenas as crianças conseguiram criar algum impacto em mim. Fora isso, é tudo muito “imaturo”.

Enfatizo que a escrita é fluída, bem conseguida e os diálogos (que considero sempre o calcanhar de Aquiles dos escritores) muito realistas. Consegue-se sentir a personalidade dos personagens, reconhecer as suas vozes.

É um bom livro, mas não cumpre os meus requisitos, aquilo que procuro numa boa leitura. Simplesmente, não chegou lá…