A árvore das mentiras – Frances Hardinge

60710024_A_Arvore_Das_MentirasSINOPSE: As folhas eram frias e ligeiramente pegajosas. Não havia engano possível: Faith tinha-as visto meticulosamente reproduzidas no diário do pai. Estava diante da árvore das mentiras, que fora o maior segredo do reverendo, que fora o seu tesouro e a sua maldição. E agora a planta era dela, e a viagem que o pai não chegara a fazer poderia ser feita pela filha. Quando o pai de Faith morre, em circunstâncias misteriosas, ela decide investigar, para descobrir a verdade que se esconde por trás das mentiras. Procurando pistas entre os seus pertences, descobre uma estranha árvore, que se alimenta de mentiras sussurradas e dá um fruto que revela segredos ocultos. Mas, quando perde o controlo das falsidades que põe a circular, Faith percebe que, se a mentira seduz, a verdade estilhaça.

CRÍTICAS DE IMPRENSA
«A Árvore das Mentiras é brilhante, entusiasmante, sombrio e completamente original. Toda a gente devia ler Frances Hardinge.»
Patrick Ness

«Divertido e provocador, este romance rico e profuso consegue o melhor da boa ficção histórica: dar nova luz ao mundo.»
The Guardian

«Tematicamente rico, estilisticamente impressionante, absolutamente inesquecível.»
Kirkus

«A escrita de Frances Hardinge mostra-se no seu melhor neste romance – irónica, melancólica e cheia de um humor negro.»
Publishers Weekly

OPINIÃO: Estou com dificuldade em escrever a review deste livro. Foi uma leitura que me fez pensar tanto que acho que não conseguirei fazer jus aos sentimentos que despoletou.

Esta história tem lugar no século XIX. Sabemos que estamos em pleno avanço científico, mas ainda sob uma influência muito forte da igreja. As mulheres são criaturas menores e o enredo não se cansa de passar essa mensagem. Faith tem um temperamento recatado e servil, tal como lhe é esperado pelos progenitores e pela sociedade. A sua calma é, porém, aparente. Com a mente em constante rebuliço de ideias e de sede de conhecimento, Faith trava uma batalha consigo mesma ao refrear os impulsos curiosos que a empurrariam para a desobediência.

Filha de um homem de ciência, a nossa protagonista vê-se aliciada pelos cadernos de notas, livros, espécimes que povoam o seu lar. No entanto, é depois de uma tragédia que Faith é posta à prova. Terá de escolher se deixará a vida correr o seu curso, apesar das consequências que estão a ser impostas à sua família, ou continuar o trabalho secreto do pai, explorando as possibilidades da árvore das mentiras.

A ostentação do saber é belo quando é emanado de um homem. Contudo, Faith sabe que não pode dar a entender que é inteligente, sob o risco de ser olhada com desdém pelos adultos, ou com estranheza pelos jovens da sua idade. A própria ciência da época apoia esta inferioridade intelectual do sexo feminino, ao sustentar esta ideia no tamanho da cabeça da mulher, muito mais pequena do que a dos homens.

São tantos os disparates que lemos neste enredo que dei por mim a dar graças por ter nascido neste século. É maravilhosa a quantidade de pormenores que nos chegam, sendo fácil perceber que estes ingleses do século XIX eram seres arrogantes e estupidamente convictos dos seus ideais toldados pelo preconceito. Hoje estamos cientes de que o preconceito apenas serve como um muro para o avanço, sobretudo científico, pelo que se torna hilariante assistir a estes sábios homens, tão apaixonados pelo desenvolvimento e pelo conhecimento, a serem impedidos de avançar devido aos seus egos inchados. É claro que inda temos destes “alfas” no século XXI, mas felizmente é a exceção e não a regra.

Para além da desigualdade de género, a história aprofunda com mestria a força dos boatos. Hoje dizemos que as redes sociais criaram juízes, mas já antes da difusão em massa de opiniões misturadas com factos pela internet, o povo já tecia as suas presunções e julgava mediante as convicções que criava a partir das mesmas. Na ausência de mecanismos para servirem de probatória, a palavra era tudo. E esta, quando lançada, transformava-se numa verdade irrefutável, desde que coubesse no que as pessoas queriam acreditar. Neste ponto, atualidade não diverge assim tanto. Quantas vezes já assistimos a rumores, que mesmo depois de serem desmentidos e provados em contrário, a prevalecerem?

A mentira é um emaranhado de linhas que se multiplicam de boca em boca. No centro desta teia está aquele que a montou, engolido pelo peso e pela força do monstro que libertou, a ter de medir cada passo que dá para que este não dê por ele e o devore.

Um livro que abre horizontes ao obrigar a refletir sobre o poder que as ilações podem ter sobre a vida de alguém. Emocionalmente atual e com mensagens por demais pertinentes a ter em consideração, como a animalidade que existe no efeito grupo, na sua capacidade de ostracizar o elemento-alvo.

O elemento fantástico está somente na existência da árvore, e mesmo assim a sua origem cultural é-nos dada a conhecer. Aos poucos, conseguimos duvidar da magia e questionar se ela está realmente ali ou não. Hoje a separação entre o racional e o fantástico está mais vincada, mas, por vezes, é mais inteligente apenas questionar e deixar a pergunta a fermentar, do que anexar-lhe uma resposta à força pelo receio do desconhecido. Tendo em conta a suavidade com que o fantástico se mistura nesta história, arrisco a afirmar que qualquer leitor (amante ou não do género) conseguirá desfrutar desta leitura.

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Um Pequeno Favor – Darcey Bell

35154136SINOPSE: Ela é a tua melhor amiga.
E conhece todos os teus segredos.
Por isso é tão perigosa.
 

A vida de uma mãe sozinha desmorona-se quando a sua melhor amiga desaparece, neste thriller arrepiante, na linha de Em Parte Incerta e A Rapariga no Comboio.

Tudo começa com um pequeno favor, um gesto que as mães de bom grado fazem umas pelas outras. Quando Emily pede à melhor amiga que lhe apanhe o filho nas escola, Stephanie nem hesita. Tal como elas, os seus filhos são melhores amigos.

Stephanie é viúva e trabalha a partir de casa, no seu blog. Vivia uma vida solitária até conhecer Emily, uma sofisticada executiva com um trabalho muito exigente em Manhattan.

Só que Emily não regressa. Não atende o telefone nem responde aos sms da amiga. Stephanie sabe que aconteceu algo de terrível e, alarmada, recorre aos leitores do seu blog para pedir ajuda. Contacta também o marido de Stephanie, o belo Sean, para lhe dar apoio emocional. É o mínimo que pode fazer.

Acabam por receber notícias terríveis.

Mas serão verdadeiras? Stephanie não tarda a dar-se conta de que nada é tão simples como parece, nem sequer um pequeno favor.

OPINIÃO: Preparados para conhecer gente maluca? Então embarquem na leitura deste livro, porque aqui assistimos ao que acontece quando 3 pessoas se deixam levar pelas emoções, tomando decisões arriscadas para satisfazer o ego.

Quando uma narrativa corre na primeira pessoa, o autor consegue mais facilmente manipular o leitor. Assim, a fazer lembrar o livro “Em parte incerta”, somos fintados constantemente pelas personagens, que do mesmo acontecimentos tecem perspectivas distintas, sendo todas reveladoras das personalidades reais e, sobretudo, dos objetivos das ações que tomam.

São 3 os personagens que nos são dados a conhecer. No entanto, achei muito interessante as diferenças no discurso de Stephanie. Esta personagem tem um blogue para “mães”. Qualquer mãe que ande pela internet sabe do que estou a falar. Existem inúmeras páginas, sites, blogues e grupos de facebook exclusivamente dedicados à maternidade. É nestes locais que muitas “mamãs” desabafam sobre as dúvidas que surgem no desenvolvimento dos filhos. Rapidamente percebemos que estas conversas seguem uma certa moralidade indiscutível. Há situações que não se questionam! Por isso, é frequente lermos frases como “como todas as mamãs estão cansadas de saber” ou até “como qualquer mamã poderá afirmar”, entre outras.

Stephanie sabe disso e não ousa chocar as suas seguidoras com aquilo que realmente lhe vai na cabeça. Assim, somos premiadas com duas versões da mesma pessoa: a mãe e amiga perfeita, e a verdadeira mulher que se esconde por detrás destes rótulos.

Deu-me imenso prazer assistir a esta hipocrisia a que a internet normalmente conduz. Mais ainda me agradou conhecer Emily e contrastá-la com a mulher que Stephanie pensa que a amiga é.

Quanto ao marido, pareceu-me um acessório essencial para o enredo, mas pouco relevo lhe pode ser dado pela forma como é apagado pelas personagens femininas.

O meu interesse aumentou a meio do livro com uma revelação (que eu já esperava), por se tratar de um tema (se é que se poderá chamar a tal característica um tema) que sempre me fascinou. Uma vez que se trata de um momento de resolução para o enredo principal, não posso adiantar mais. Leiam! :p

É uma história que se lê muito bem. Alguns pormenores pareceram-me inverosímeis, nomeadamente os efeitos secundários de um certo medicamento e a completa estupidez da polícia. Contudo, à parte esses momentos mais “convenientes, julgo ser um livro que agradará aos leitores que gostam de personagens disfuncionais.

As gémeas – Saskia Sarginson … por Andreia Silva

22172320SINOPSE: Elas eram idênticas em tudo… até o impensável as ter separado.

Isolte e Viola são gémeas. Inseparáveis durante a infância, tornaram-se adultas muito distintas: Isolte é uma redatora de sucesso numa revista de moda, tem um namorado fotógrafo e um apartamento em Londres; Viola é uma pessoa desesperadamente infeliz e luta há muitos anos contra um distúrbio alimentar.
O que terá acontecido no passado para que as gémeas seguissem caminhos tão diferentes nas suas vidas? À medida que as duas irmãs começam a esclarecer as tragédias de um verão meio esquecido, segredos terríveis do passado vêm à tona, ameaçando apoderar-se das suas vidas…

 

OPINIÃO: Isolte e Viola são gémeas e têm toda aquela entrega uma à outra típica dos gémeos. No entanto, algo durante a infância as separou e é isso que a autora nos vais tentar contar durante este livro.

Eu gostei do livro, mas não foi tudo aquilo de que estava à espera. Estava a contar, segundo a sinopse, com uma pitada de policial e mistério que me fizesse querer ansiar por mais páginas. Mas, apesar do mistério existir e de não se saber o que de facto aconteceu, a história não puxa o leitor.

A narrativa torna-se um pouco confusa aos nossos olhos, uma vez que em cada capítulo podemos ter excertos na terceira pessoa e na primeira pessoa sem que seja dada a informação da voz que está a ser ouvida. O leitor chega lá pelo sentido e, muitas vezes, pelo tom que é usado.

É uma história muito descritiva. A autora não se limita a contar e a expôr fatos. Em cada acontecimento existe uma descrição de locais, de pessoas, de sensações que, por um lado, torna a escrita mais rica, mas por outro pode chegar a cansar o leitor por a história andar mais lenta.

No global, foi um livro que me agradou mas que não me prendeu. O final é bom mas um pouco aberto. Mas percebo a intenção da autora. Com o tipo de história e o rumo que tomou, o resto do final foi deixado na imaginação de cada um que a ler.

Possuída pelo passado – Sara Flannery Murphy

35545884SINOPSE: Já todos perdemos alguém que amamos muito. E se, finalmente, for possível comunicar com o «outro lado»?

Edie trabalha há cinco anos na Sociedade Elisiana, uma empresa que fornece um serviço altamente exclusivo e especializado: os clientes podem comunicar com o espírito dos seus familiares mortos através dos corpos dos empregados. A jovem Edie é a melhor da sua equipa, sendo reconhecida pelo seu profissionalismo e discrição.

Porém, tudo muda quando Patrick contrata este serviço para falar com Sylvia, a sua falecida mulher. Edie passa cada vez mais tempo com ele, e acaba por se apaixonar pela vida do casal. Um fascínio que se torna uma incontrolável obsessão ao descobrir as misteriosas circunstâncias em que ocorreu a morte de Sylvia. As personalidades e histórias de Edie e Sylvia começam a diluir-se.

Depois de vários anos sem tempo para si, Edie quer apenas recomeçar tudo e ter uma vida nova. Mesmo que seja a de uma mulher morta.

OPINIÃO: A premissa deste livro interessou-me logo. Tenho um fraquinho pelo sobrenatural, o que não será novidade para quem segue este blogue.

Esperava encontrar uma história de fantasmas, mas acabei por entrar num enredo extremamente profundo, daqueles que mexem com perguntas existenciais e nos remetem a um silêncio humilde.

É possível perdermos-nos dentro de nós. Quem já esteve perto, ou mesmo dentro, de um estado depressivo conseguirá perceber de imediato qual é esta sensação. Porém, fui sufocada por um estado de espírito que não entendo, mas que me assustou por saber que é real e que há quem padeça da mesmo. A nossa protagonista desapareceu dentro de si mesma e já não sabe quem é. Edie sente-se invisível e confortável nessa posição. Há muito mais por detrás desta fachada de auto-domínio, calma e perfeição, e o que se descobre é ainda mais complexo, pois não nos dá uma resposta positiva, tal como acontece na vida real.

A profissão de Edie é estranha: ela incorpora os espíritos dos falecidos, para que estes possam comunicar com os entes queridos. A partir do momento em que se dá a possessão, Edie desaparece. A entidade ocupa o seu lugar dominante e durante uma hora (por vezes mais) o seu corpo não lhe pertence. As passagens das sessões vão apenas até esse ponto, uma vez que a história é contada na voz de Edie. É frustante! Acompanhamos as conversas que antecedem as sessões e as que se sucedem, mas não sabemos o que foi dito no entretanto, porque Edie não estava lá. Resta-nos especular muito, tendo por base o comportamento dos “clientes”.

Quando Edie se envolve demasiado na vida de um dos clientes, senti verdadeiramente pena dela. Há em Edie um vazio tão grande que qualquer sentimento lhe parece grandioso. Aquilo a que ela está disposta a abdicar e as suas atitudes sem amor-próprio entristeceram-me. Não compreendo o que é desejar a vida dos outros na totalidade, mas tenho consciência de que há quem anseie mudar de pele.

A escrita é cuidada e muito floreada. A autora parece ter procurado tocar no íntimo dos leitores revestindo a narrativa de metáforas. Chega a ter frases verdadeiramente poéticas. Pessoalmente, prefiro quando a escrita não se torna demasiado rebuscada no uso excessivo da chamada “purple prose”. No entanto, admito que há partes dignas de serem sublinhas e citadas.

Quanto ao enredo de Sylvia, serve para desanuviar da pressão do mundo vazio de Edie, deixando-nos respirar e assistir a alguma ação, uma vez que nos leva a raciocinar sobre o que terá realmente acontecido à esposa de Patrick. Além do misterioso acidente que tirou a vida a Sylvia, também surge um outro enredo que ganha preponderância e será decisivo para as tomadas de decisão que fecharão a história: o caso da Hopeful Doe.

É um livro interessante, que explora as etapas do luto, a resistência em deixar os mortos partirem, seja por amor, amizade ou até mesmo culpa; e as doenças mentais e as suas limitações. Fala acerca da força interior que oscila, quando o obstáculo é invisível aos olhos. Leva os leitores a refletir sobre a vida e a morte e obriga-o a compreender que há lutas que, apesar de não serem físicas, não deixam de ser extremamente difíceis de enfrentar.

Quero-te morta – Peter James

CLUBE DO AUTOR 1SINOPSE: Quando uma mulher conhece o atraente e charmoso Bryce Laurent através de um site de encontros, a atração é imediata. Contudo, à medida que a ligação entre eles se torna mais intensa, a verdade sobre o passado de Bryce, e o seu lado mais negro, começam a emergir. Tudo o que contou sobre a sua vida revela-se uma teia de mentiras e, aos poucos, a paixão de Red Westwood converte-se em terror.

OPINIÃO: São histórias como esta que me fazem ponderar acerca da pena de morte. Sou apologista de que não temos o direito de tirar a vida a ninguém, independentemente dos crimes que possam ter sido cometidos. Pois… isto na teoria é muito bonito… A convicção é fraca e oscila muitas vezes, tendo em conta as atrocidades que se assistem no dia a dia.

Aqui temos um caso de obsessão, um homem que vive com um único objetivo: fazer sofrer a mulher que o deixou.

Bryce é um psicopata. Ao longo do livro somos apresentados ao seu passado e o que conhecemos vai de encontro ao que a psicologia afirma, de que na maioria das vezes tudo advém de traumas infantis.

Este homem não é capaz de ser razoável. Com isto quero dizer que ninguém o conseguirá dissuadir de perseguir a sua vítima e as pessoas que a rodeiam.

Apanhar Bryce também é um problema. Este homem não é um simples criminoso, mas um génio naquilo a que se dedica. Detentor da experiência de variados ofícios a que se dedicou ao longo “das suas vidas”, Bryce é extremamente perigoso, esquivo e doente.

“Quero-te morta” é um livro que se lê bastante bem, depois de percebermos que se trata de um volume de uma coleção. Algumas passagens soavam-me estranhas até perceber que estava perante uma “continuação”. Este livro pode ser lido de forma independente, mas há com certeza algo que se perde. A perseguição de Bryce a Red é aberta neste livro e fica totalmente fechada. Contudo, esta série chama-se “Roy Grace”, que é o nome do detetive, e somos várias vezes transportados para a vida pessoal deste, cuja informação não remonta apenas deste volume. Apesar de haver o cuidado de facilitar a um leitor de primeira viagem nesta série o entendimento do que se está a passar, senti que se tivesse tido a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento das peripécias do detetive rejubilaria com as revelações que este volume traz.

As emoções foram muitas e, sobretudo, acabei por me sentir solidária para com a policia. Ter de proteger mulheres como Red é dose! Se o monstro é demoníaco, a vítima é uma idiota. Até se percebem certas atitudes, mas irritou-me a arrogância dela em se manter firme quanto a algumas decisões pessoais que tomou, precisando tanto da proteção policial.

É um policial da cabeça aos pés! No entanto, envereda também pela cabeça do vilão e da vítima, e não só da polícia, dando-nos uma visão muito ampla do enredo.

Gostava de ter a oportunidade de ler a série por ordem. Apesar de ter sido uma leitura que deixou algumas marcas pela crueldade e realismo que muito bem transmitiu, acredito que a desfrutaria muito mais se estivesse completamente dentro do contexto da totalidade do que é narrado, tanto sobre as qualidades de Roy Grace como detetive, como acerca das suas inimizades e amores perdidos em volumes anteriores.

O final é absolutamente soberbo e apeteceu-me bater palmas.