Às cegas – Josh Malerman

39331264SINOPSE: Não abra os olhos. Há algo terrível lá fora.
Num mundo pós-apocalítico tenso e aterrorizante que explora a essência do medo, uma mulher, com duas crianças, decide fugir, sonhando com uma vida em segurança. Mas durante a viagem, o perigo está à espreita: basta uma decisão errada e eles morrerão. Cinco anos depois de a epidemia ter começado, os sobreviventes ainda se escondem em abrigos, protegidos atrás de portas trancadas e janelas tapadas.
Malorie e os seus filhos conseguiram sobreviver, mas agora que eles têm 4 anos chegou o momento de abandonar o refúgio. Procurar uma vida melhor, em segurança e sem medos.
Num barco a remos e de olhos vendados, os três embarcam numa viagem rio acima. Apenas podem confiar no instinto e na audição apurada das crianças para se guiarem. De repente, sentem que são seguidos. Nas margens abandonadas, alguém observa. Será animal, humano ou monstro?
Um suspense inquietante que relembra as melhores histórias de Stephen King.

OPINIÃO: Já terminei esta leitura há algum tempo. Mal o recebi, peguei nele e li-o numa semana (porque o dia-a-dia não me permitiu fazê-lo mais rápido).

Demorei a decidir-me a escrever a opinião porque queria sentir-me inspirada. Isto porque quero mesmo muito que apostem neste livro, que entendam o quão esta história me ficou gravada na cabeça.

No outro dia, acordei a meio da noite e não liguei a luz para ir ao quarto-de-banho. Pelo caminho (curtíssimo) desorientei-me e esbarrei contra a parede e embati com as canelas na cama. Aí, lembrei-me desta história.

Fiz o teste mais algumas vezes dentro do meu próprio quarto, um local que conheço, que sei ser seguro…

Depois da sensação de desamparo de tais experiências, mais certa fiquei de que não sobreviveria um dia no mundo criado por Josh Malerman.

Também tenho uma criança pequena, tal como a protagonista. A ideia de ter de a proteger num mundo onde não poderia abrir os olhos, deixa-me em pânico. Foram várias as vezes em que me imaginei no lugar dela, com o meu próprio filho ao lado, de olhos vendados a temer o que estaria à minha volta.

Sem visão, o mundo é muito maior. Não tinha noção. Um quilómetro pode demorar horas a percorrer.

Depois, vem a loucura. Aquela, aquela… aquela coisa que ninguém percebe realmente, mas que é assustadora e imprevisível.

Não posso dizer que o livro tenha “cenas” chocantes, mas sim que as sugere com mestria. A nossa imaginação rebusca imagens para o que Malorie ouve, para o que poderá estar ali, tão perto. Perto demais.

Adorei! Li o livro com um prazer imenso e é uma história que me vai ficar gravada na memória, tal como em tempos a história da Medusa me deixava intrigada e arrepiada.

Não fiquei satisfeita com o final, porque queria mesmo saber mais. Não queria que acabasse, queria saber mais do que Malorie, queria saber o que passava ali.

Contudo, os personagens que conhecemos perto do final estão muito bem inseridos. Confesso que já me tinha passado pela cabeça que seria interessante saber como é que certas pessoas, com determinadas características distintivas, estariam a viver naquele mundo pós-apocalíptico onde olhar é sentença de morte.

Vou ter mesmo de perguntar ao autor se ele pensa voltar a este mundo outra vez. Se ele tem ideias de nos dar a conhecer mais informações acerca deste mundo de sobressalto que criou.

Quanto à Topseller, obrigada por apostar no terror, um género que não é muito divulgado em Portugal (que eu adoro!), e espero que ponderem em traduzir as outras obras deste autor.

Tenho a certeza que ouviremos falar muito de Josh Malerman.

A relembrar que a adaptação deste livro sai em outubro pela Netflix!!!!! (Falta tantoooo 😭)

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O silêncio das filhas – Jennie Melamed

36988660SINOPSE: Basta uma pergunta inocente.
E nada será igual para estas raparigas.

Vanessa, Amanda, Caitlin e Janey vivem numa ilha. Não sabem em que região do mundo nem em que ano estão, mas aprenderam que a vida lá é uma bênção comparada à das temidas Terras Devastadas — onde reina a doença e a podridão. Aquele era um lugar tão negro que os seus dez antepassados decidiram debandar e fundar uma nova sociedade com novas regras. Neste mundo, as mulheres e as suas filhas levam uma vida austera e controlada pelos patriarcas. O destino não lhes pertence. Apenas no verão, e enquanto crianças, é que elas são livres. Assim que a puberdade desperta, tornam-se esposas em treino nas mãos dos pais, dos maridos e dos seus governantes. Logo que deixam de ser úteis, são imediatamente descartadas, segundo os rituais da ilha.

Todas as mulheres cumprem as regras. Até que um dia, a pequena Caitlin assiste a algo tão chocante que não consegue guardar silêncio sobre o que sente. Ela conta às outras. A palavra espalha-se. A redoma quebra-se. E então, uma pergunta paira-lhes na cabeça: será o destino delas assim tão inevitável? Crua, destemida e negra. A história de um culto numa ilha isolada, a que nenhum leitor ficará indiferente.

OPINIÃO: Não precisamos de invocar monstros das profundezas do infernos para ressuscitar o medo. Basta olharmos para a história do mundo e apercebermo-nos de que os direitos que tomamos por garantidos não são imutáveis, tendo em conta os preconceitos que ainda hoje povoam a mente do povo.

A sociedade faz a força e quando uma “tribo” decide viver segundo certos ideais, os párias sofrem.

Esta história traz-nos uma pequena sociedade instalada numa ilha, onde a mente das pessoas foi moldada a acreditar em rituais repulsivos, comportamentos abusivos e em estatutos desiguais entre géneros.

Haverá algo neste mundo mais assustador do que o fundamentalismo religioso?

O que fazer, o que pensar, quando certas ações caem num tal relativismo que ninguém as questiona?

O que acontece a quem o faz? Todos sabemos o que acontece a quem se opõe nestas situações…

“O silêncio das filhas” é um livro que nos leva a refletir sobre os direitos que as mulheres adquiriram na atualidade e na possibilidade de os verem retirados um dia. Com o mesmo toque claustrofóbico do “The handmaid’s tail”, a premissa da crueldade entre géneros está presente e funciona.

As vozes das mulheres estão bem conseguidas, passando para nós um conjunto de personalidades distintas, pontos de vista e histórias de vida, que apesar de semelhantes, terão desfechos diferentes movidos pela força com que enfrentam o seu destino e também pelo momento em que escolhem fazê-lo.

Eu tenho um problema com os finais. Considero que os desfechos (sendo o momento mais difícil de construir numa narrativa) têm de estar ao nível dos pontos que se foram abrindo ao longo da história. Aqui, faltou alguma coisa. Foi como se tivéssemos de aceitar, simplesmente, algumas coisas que foram acontecendo e o enredo se partisse, ficando por ali.

Gostaria de saber se a autora, que é sem dúvida promissora e de quem vou estar de olho doravante, pensa em voltar a esta ilha para lhe dar o climax e o ponto final que merece.

A verdade e as mentiras de Ella Black – Emily Barr… por Andreia Silva

38372481SINOPSE: E se a tua vida não passasse de uma grande mentira?

Aquele parecia ser um dia normal, como tantos outros na vida da jovem Ella Black. Mas, subitamente, Ella é surpreendida no liceu pelos próprios pais. Sem aviso nem explicações, levam-na e os três partem de Londres para o Rio de Janeiro, numa viagem inesperada e misteriosa.

Confusa e sem respostas convincentes, Ella pergunta-se de que coisas terríveis estarão os pais a fugir. O que os terá levado a deixar tudo para trás?

Longe dos amigos e da vida que sempre conheceu, sente- -se ainda mais perdida quando se depara com uma revelação impensável: Ella é adotada e os pais adotivos levaram-na para o Brasil para fugir da mãe biológica.

Desesperada com esta nova realidade e em busca de explicações, foge de casa, iniciando uma perigosa jornada pelas ruas e favelas da cidade.

Mas que outras revelações virão do seu passado? Estará Ella preparada para enfrentar a verdade?

Uma aventura de busca de identidade, passada num ambiente exótico e perigoso, com que o público jovem adulto facilmente se identificará.

OPINIÃO: Ella Black vive a sua vida de uma forma isolada com os pais. Um dia, estes, de repente, levam-na para o Rio de Janeiro sem lhe dizerem o porquê.

A sinopse que está no livro é um pouco enganadora. A questão da adopção da Ella só é posta à tona depois de mais de 100 páginas, logo esse facto não devia estar esparramado na sinopse. Daria ainda mais imprevisibilidade à história que parece ser à partida bonita e é na verdade muito dura. Por ser contada na primeira pessoa torna-se ainda mais real toda a confusão da vida que Ella tinha, e na que vai ganhando ao longo do enredo.

A dicotomia na personalidade da Ella (e é uma personagem muito bem construída) dá a todo o livro uma fluidez e uma antítese de sentimentos para com a protagonista. Nós, leitores, ficamos sempre com o pé atrás e ao mesmo tempo com vontade de a abraçar e dizer que vai ficar tudo bem.

É muito mais do que uma história sobre adoção. Fala-se de crescimentos difíceis e forçados e de vidas interiores tão complexas que, por vezes, tornam impossível achar a felicidade.

Há qualquer coisa de profundo neste livro que me faz dar as 5 estrelas. E elas são merecidas.

A jornada que a Ella faz ao longo destas páginas mostra-nos como a vida às vezes nos leva por caminhos estranhos, mas certos. E que, como seres humanos, temos de aprender a conviver com as nossas próprias vozes interiores, mesmo que por vezes elas sejam más.

Desaparecido – C.L. Taylor

38332282SINOPSE: Quando Billy Wilkinson, um adolescente de 15 anos, desaparece a meio da noite, Claire, a sua mãe, culpa-se pelo que aconteceu.

Mas não é a única a fazê-lo. Todos os membros da família se sentem culpados.

O facto é que os Wilkinsons estão tão acostumados a guardar segredos entre si, que a verdade só começa a vir ao de cima seis meses depois. E uma coisa é certa: alguém sabe o que aconteceu a Billy.

Claire acredita desesperadamente que o filho ainda está vivo e convence-se de que a família e os amigos não têm qualquer relação com o seu desaparecimento.

E o instinto de uma mãe nunca falha… Ou falhará?

OPINIÃO: Que livro! Adorei! Impossível não lhe dar as 5*. As páginas viravam sozinhas.

De cada vez que lhe pegava, nunca era um só capítulo. Esta senhora tem mesmo um dom para plantar âncoras!

A temática que este livro aborda mexe comigo, logo à partida, devido a dois grandes fatores:

. A adolescência de um filho (de vez em quando dá-me aquele receio de como será o meu menino com quinze anos) e

. O desaparecimento de um filho.

São demasiado frequentes as notícias de desaparecimento de crianças/adolescentes. Nas redes sociais começa a ser uma constante os pedidos de partilha de imagens de rostos felizes cujo paradeiro é uma incógnita.

Dá medo, muito medo!

Claire vive neste impasse desde que Billy desapareceu. Estará vivo, estará morto? Esta mãe já não sabe viver, já não consegue encarar a vida, seja para trabalhar, seja para regressar aos seus hobbies. Até as suas relações pessoais acabam por sofrer, porque o assunto “Billy” acaba por prevalecer em qualquer conversa.

Passaram 6 meses e Claire não desiste. É mais forte do que ela. A sua mente recusa-se a aceitar o desaparecimento do filho. Ela precisa de saber se ele está vivo ou morto.

Seguem-se os olhares de piedade, as frases não ditas daqueles que já se consciencializaram de que o adolescente só poderá estar morto.

As demandas de Claire em busca do paradeiro de Billy são desesperantes! Consegui sentir o seu desespero, a dor de não conseguir respostas.

Este é o retrato de uma mãe que perde um filho. Mas Claire tem outro filho e também um marido… Estes também sofrem, cada um à sua maneira.

Depois, surge a paranóia. Segredos e mentiras.

Os leitores têm acesso a um conjunto de conversas entre os capítulos. Dava por mim a reler essas passagens para tentar perceber quem eram os interlocutores.

Aos poucos, vamos conhecendo um Billy que Claire não conhece. Um rapaz complicado, obsessivo, até certo ponto, mau. (Um adolescente?)

Este aspeto foi uma lufada de ar fresco, o facto de Billy não ser só uma vítima. Ele é um personagem verdadeiramente complexo. Queremos conhecê-lo melhor, percebê-lo.

Fiquei verdadeiramente surpreendida com este livro, que não excede o limite da realidade e, ao mesmo tempo, prende o leitor com peripécias palpáveis carregadas de emoções.

Recomendo e recomendo.

Anatomia de um escândalo – Sarah Vaugha

38617967SINOPSE: James Whitehouse é um bom pai, um marido dedicado e uma figura pública carismática e bem-sucedida. Um dia, é acusado de violação por uma colaboradora próxima. Sophie, a sua esposa, está convencida de que ele é inocente e procura desesperadamente proteger a sua família das mentiras que ameaçam arruinar-lhes a vida.

Será que é sempre interpretada da mesma forma?

Kate Woodcroft é a advogada de acusação. Ela sabe que no tribunal vence quem apresentar os melhores argumentos, e não necessariamente quem é inocente. Ainda assim, está certa de que James é culpado e tudo fará para o condenar.

De que lado estará a verdade?

Será James vítima de um infeliz mal-entendido ou o autor de um sórdido crime? E estará a razão do lado de Sophie ou de Kate? Este escândalo — que irá forçar Sophie a reavaliar o seu casamento e Kate a enfrentar os seus demónios — deixará marcas na vida de todos eles.

OPINIÃO: No mundo do direito penal, todos sabemos, não existem crimes mais difíceis de sentenciar do que os crimes sexuais. A situação complica-se ainda mais quando o sujeito que pratica o crime é uma pessoa com um cargo e estatuto social elevado.

Ora bem, houve tempos em que o direito acreditava que não deveria entrar “nos quartos”. No que tocava a esse tema, o direito ficava à porta. Felizmente, hoje não é assim. No entanto, a problemática da probatória é sempre uma constante.

Este livro explora imenso o conceito de “consentimento”. Aliás, toda a ação jurídica desta história debruça-se sobre o mesmo.

Quero advertir que a autora é inglesa, pelo que o direito que assistimos ao longo destas maravilhosas páginas não é o mesmo que toca a nossa realidade portuguesa. No Reino Unido aplica-se o chamado “common law”.

Em síntese, existem dois modelos: o inquisitório e o acusatório. Não há nenhum estado que aplique um modelo de forma pura, mas verifica-se sempre alguma supremacia de um modelo em detrimento do outro.

Na Inglaterra, prevalece o modelo acusatório. Em Portugal, temos um processo penal de estrutura acusatória, mitigada por um princípio da investigação. O objetivo do nosso direito processual penal é alcançar a verdade (material). É esse o papel do Ministério Público e do juiz.

Desta forma, o facto de haver um núcleo de jurados (que não é prática no nosso país) dá ao julgamento um teor muito mais teatral e novelístico.

É exatamente isso que espera ao leitor: muitas reflexões.

No meu caso, debati-me sobre a problemática de aplicar uma justa pena para este crime, sobre o facto de assistir à vítima uma necessidade de se fazer ouvir e de marcar a sua posição, e também sobre o facto de podermos viver em ilusão em relação às pessoas que nos rodeiam.

A narrativa inclina-se para a proteção das mulheres. A visão que passa é um tanto feminista. Decerto agradará a muitas leitoras, mas penso que, para conseguirem visualizar a temática como um todo difícil de resolver, é fundamental que se abstraiam dessas vozes femininas que apelam à sua causa.

Este livro foi extremamente útil para compreender como funciona o sistema inglês e de como não difere, no que diz respeito a resultados, do nosso.

Esta história serviu para confirmar a minha convicção de que as mulheres têm de se saber defender, de se conseguirem fazer ouvir, sobretudo no momento em que os nossos direitos estão a ser violados. Só assim é que se consegue fornecer ao sistema meios de levar o culpado à justiça, uma vez que a ideia de um mundo sem estes predadores é uma utopia.

Em tom de conclusão: excelentes personagens, com especial relevo para Sophie que é, na minha opinião, a que mais vê a sua vida descambar.

A narrativa é fluída, deixando-nos curiosos até ao final quanto ao veredicto.

Além do processo, há outras pontas que são abertas quanto ao passado de James que queremos perceber. Deste modo, mesmo depois da sentença, há motivos para que a leitura prenda até à última página.

Por fim, parabenizo a autora pela pesquisa e exposição jurídica nada enfadonha, mostrando que o direito pertence a todos e que tem de ser conhecido por todos.

Gostei!