Lá, onde o vento chora – Delia Owens… por Andreia Silva

46649430._SY475_SINOPSE: Kya tem apenas seis anos de idade quando vê a mãe sair de casa, com uma maleta azul e sapatos de pele de crocodilo, e percorrer o caminho de areia para nunca mais voltar. E à medida que todas as outras pessoas importantes na sua vida a vão igualmente abandonando, Kya aprende a ser autossuficiente: sensível e inteligente, sobrevive completamente sozinha no pantanal a que chama a sua casa, faz amizade com as gaivotas e observa a natureza que a rodeia com a atenção que lhe permite aprender muitas lições de vida.
O isolamento em que vive durante tantos anos influencia o seu comportamento: solitária e fugidia, Kya é alvo dos mais cruéis comentários por parte dos moradores da pacata cidade de Barkley Cove.
E quando o popular e charmoso Chase Andrews aparece morto, todos os dedos apontam na direção de Kya, a miúda do pantanal. E o impensável acontece.

Neste romance de estreia, Delia Owens relembra-nos que somos formatados para sempre pelas crianças que um dia fomos, e que para sempre estaremos sujeitos aos maravilhosos, mas também violentos, segredos que a natureza encerra.

OPINIÃO: Delia Owens traz-nos a história de Kya, uma menina que a partir dos seis anos se vai vendo cada vez mais sozinha com a partida de todos. Através da ajuda de poucas pessoas e da sua inteligência e perspicácia, vai-se adaptando a uma solidão no meio da natureza do pântano. Quando Chase, que se tinha aproximado dela, aparece morto todos a vão condenar.

“Lá, Onde o Vento Chora” não tem um género definido mas torna-se num livro que mistura mistério, romance e crescimento pessoal. Ao longo das páginas e, simultaneamente, ao longo dos anos, vamos assistindo ao crescimento da pequena Kya e investigando a morte do Chase. Lá pelo meio os dois acontecimentos cruzam-se e passamos a ver o julgamento de Kya acusada deste crime.

Em todo o livro há passagens repletas de descrição que nos remetem para as imagens mentais dos locais reais do livro. Mesmo não conhecendo os locais pessoalmente, consegue-se facilmente imaginá-los. É uma escrita muito cuidada, muito bem delineada dando ao livro um aspeto de livro mais crescido, mais formal. Não tem, por isso, muitas vezes, um ritmo rápido de leitura.

Gostei imenso da relação que Kya e outras personagens têm com a Natureza e com o meio que os rodeia, mais especificamente com o pântano. As referências à fauna, à flora, ao comportamento animal, ao clima, entre outras foi algo que me fez identificar com o livro. Acredito que para alguém fora da ciência ache estas partes mais enfadonhas.

Em toda a história há uma melancolia que é inerente à solidão que a Kya sente e que vai crescendo à medida que ela também fica mais velha. Esses sentimentos mais depressivos e melancólicos não chegam a ser tristes, mas confere-nos um sentimento de gratidão por não os sentirmos com tal intensidade. Se tivesse que dar um sentimento a este livro seria a solidão.

O livro é bom, está bem escrito e tem uma história bonita e comovente. No entanto, a excessiva melancolia acabou por diminuir o meu interesse pela história. Apenas estava curiosa para saber o desfecho do mistério em redor da morte de Chase. Mas tenho a certeza que muita gente adorará esta leitura.

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Diz-me que és minha – Elisabeth Noreback… por Andreia Silva

46005638._SY475_SINOPSE: «Eu enterrei-te. Estivemos junto à tua lápide no cemitério. Chorámos e despedimo-nos.

Mas eu nunca deixei de te amar. Procurei-te em todas as multidões, em todos os rostos, em todos os autocarros, em todas as ruas. Ano após ano.»

Stella Widstrand é uma psicoterapeuta respeitada. Casada com um homem carinhoso, mãe de um rapaz de 13 anos, com uma casa invejável e um bom carro, parece ter tudo para ser feliz. Porém, há no seu passado um terrível acontecimento que nunca foi verdadeiramente superado.

Quando um dia Stella vê entrar no seu consultório a jovem Isabelle, suspeita que se trata na realidade de Alice, a sua filha desaparecida durante um passeio em família cerca de vinte anos antes, e que todos julgavam morta.

Mas será realmente a filha de Stella? Estará a imaginação a pregar-lhe mais uma partida? Como poderá confirmar tal suspeita sem que a considerem louca? E se Isabelle for mesmo a sua filha, o que lhe aconteceu afinal? Como desapareceu? Para obter respostas, Stella inicia uma busca obsessiva e perigosa pela verdade, colocando em risco a vida que levou vinte anos a construir.

Elisabeth Norebäck estreia-se na escrita com um thriller psicológico inquietante que evoca o amor maternal e o maior medo que uma mãe pode sentir: o da perda de um filho. Em Diz-me Que És Minha, o leitor assiste à luta entre prudência e loucura, passado e presente, ilusão e realidade, mas sobretudo entre vida e morte.

OPINIÃO: Stella Widstrand perdeu a filha há mais de vinte anos, quando esta desapareceu do seu carrinho durante umas férias. Dada como morta por todos menos pela mãe, não tornou mais a ser vista. Um dia, Isabelle entra no consultório de Stella e esta tem a certeza que está perante a sua Alice.

O desaparecimento de crianças será sempre um bom tema para um livro de suspense. Só de pensar na angústia de uma mãe ou de um pai ao deixarem de saber onde e em que condições está o filho, nos deixa atormentados. Este não é a excepção! Mas ao contrário de outros, este desaparecimento aconteceu há vinte anos e temos uma investigação solitária por parte de Stella. É como se o livro nos fizesse, devagar, recuar no tempo até chegarmos à verdade.

Desde o início que a história me deixou intrigada. Sabia que, muito provavelmente, o final seria mais ou menos o que se estava à espera, mas foi o caminho até ele que me deixou com a pulga sempre a coçar atrás da orelha.

Todos os capítulos estão identificados, o que facilita imenso na leitura. Sabemos de antemão o tipo de pensamento, de atitudes e de comportamento que vamos ler. Nenhuma destas personagens é igual à outra e cada uma tem um papel fundamental no decorrer dos factos. É um dos pontos mais fortes da escrita da autora. A construção destas mulheres está fenomenal.

Isabelle é uma mulher que, no fundo, nunca conseguiu crescer verdadeiramente. Stella acaba por deixar um sentimento de pena no leitor. Foi construída em cima da dor e da aflição materna, o que dá ao leitor, mesmo não tendo filhos, experimentar essa sensação.

Os últimos capítulos são alucinantes e muito reveladores. Apesar de ser mais ou menos na linha do esperado, estão descritos de uma forma, seguindo uma determinada ordem, que deixa o leitor sempre com a respiração em suspense. Acho o final muito bonito, apesar dos acontecimentos que levaram a ele não o serem.

É um livro muito bom que vai deixar qualquer um viciado!

O intruso – Stephen King… por Andreia Silva

46271401._SY475_SINOPSE: Um rapaz de onze anos é encontrado morto. Todas as evidências apontam para que o assassino seja Terry Maitland, um dos cidadãos mais queridos de Flint City, professor de inglês, marido exemplar e pai de duas meninas. O detetive Ralph Anderson dá-lhe voz de prisão. Maitland tem um álibi forte, estava noutra cidade quando o crime foi cometido, mas os indícios de ADN encontrados no local confirmam que é ele o culpado. Aos olhos da justiça e da opinião pública, Terry Maitland é um assassino e o caso está resolvido.

Mas o detetive Anderson não está satisfeito. Maitland parece ser uma boa pessoa, um cidadão exemplar, terá duas faces? E como era possível estar simultaneamente em dois lugares?
Por ser um romance de Stephen King, quando conhecemos a resposta, arrependemo-nos de ter formulado a pergunta.

OPINIÃO: Terry Maitland é acusado do assassinato de um rapaz de onze anos. Sem dúvida em relação às provas, aos indícios e às acusações contra ele, o detetive Ralph Anderson prende-o em frente à comunidade. No entanto Terry consegue provar que, à hora do crime, se encontrava a quilómetros de distância da cidade. Como explicar?

Esta premissa prende qualquer leitor logo nas primeiras páginas.

Quando se começa a leitura já o crime ocorreu e o que se pretende é arranjar evidências para encontrar o culpado deste ato tão horrível. Os depoimentos feitos à policia, que são relatados para se chegar a essas evidências, estão de tal forma bem conseguidos que não é possível parar a meio. São viciantes. São uma espécie de jogo de ténis em que  leitor é obrigado a seguir tanto a  jogada dos acusadores como a do acusado.

Esta história está carregada de personagens mas não se torna confusa. Todas acabam por ter uma papel, uma missão no desenrolar dos acontecimentos que as tornam fundamentais à coerência deste mistério.

O livro acaba por se tornar menos policial, do que inicialmente sugere, com o decorrer das páginas e do adensar da narrativa. Por muito que o crime pareça, à partida, muito humano e muito terra a terra, há uma fuga para o sobrenatural, daquele que puxa ligeiramente para o susto. Penso que isto será um pouco inerente à escrita de Stephen King. Toda a história é extremamente real até surgir algo que, racionalmente, não é possível explicar.

Apesar das mais de quinhentas páginas, o livro tem o tamanho ideal para explicar todas as hipóteses abertas. Senti que o final ficou lacrado e por isso nada ficou por justificar. Não se tornou cansativo, pelo contrário, foi-se tornando cada vez mais intrigante.

Gostei imenso da forma como King conseguiu juntar o lado sobrenatural com o lado racional sem nunca atingir o ridículo. Chega até a passar pela cabeça como é que ninguém pensou nesta forma de encarar as coisas por este ponto de vista. Não me quero alongar para não estragar a surpresa a ninguém mas que sirva para aguçar a curiosidade!

Tendo em conta a quantidade de livros e de histórias que o autor já escreveu, posso afirmar que a escrita dele será como o vinho do Porto, apenas melhorando a cada narrativa.

Serás real? – Francesca Zappia… por Andreia Silva

45361960._SY475_.jpgSINOPSE: Nem sempre é possível confiar no que se vê.

«Às vezes, acho que as pessoas tomam a realidade por garantida. Quer dizer, como é que se percebe a diferença entre sonho e vida real?»

A Alex enfrenta uma luta diária: distinguir entre realidade e alucinação. Munida de uma atitude destemida, uma bola mágica e uma máquina fotográfica que lhe permite captar o mundo exterior, ela trava uma batalha contra a esquizofrenia, enfrentando tudo e todos para não se deixar definir nem limitar pela sua doença. O seu plano parece correr-lhe de feição ao iniciar uma nova vida numa nova escola. Mas, um dia, a Alex conhece o Miles e, de um momento para o outro, começa a viver os ritos de passagem próprios da juventude: faz amizades, vai a festas, apaixona-se…

Porém, o mundo da Alex está repleto de cores, objetos, pessoas e sons que podem ou não ser reais. A memória e os sentidos mentem-lhe constantemente, semeando a dúvida: será que o Miles existe mesmo? E estará ela preparada para ter uma vida normal?

Um livro provocador e intrigante sobre a doença mental e o significado de ser adulto.

OPINIÃO: Alex tem esquizofrenia e uma dúvida constante sobre a realidade à volta dela. Carrega com ela uma máquina fotográfica para perceber o que será ou não real. Quando conhece Miles tem medo que ele a julgue pela sua doença e, sobretudo, que ele também não seja real.

Já tinha lido este livro em inglês, mas quis relê-lo. Por um lado, já se tinham passado uns anos e, por outro, queria ver o impacto da mesma história contada na língua portuguesa. Algumas partes fizeram-me reavivar a memória, principalmente a forma impactante como o livro começa. Houve outras que não me recordava de todo e que acabaram por proporcionar o efeito em mim como se as lesse pela primeira vez.

Esta história tem uma premissa muito boa e diferente de todos os livros do género. Os livros para jovens adultos que tratam de doenças mentais focam-se, geralmente, em distúrbios alimentares ou ansiedade/depressão. Pelo menos os que me passaram pelas mãos. Já a esquizofrenia acaba por ser mais descurado e isso tornou-se um diferencial. Acho que a autora pecou na escassa profundidade que deu ao tema. Falta qualquer coisa nesta história que dê um aspeto mais real à Alex e à sua doença.

Apesar disso, achei a história de amor que surge entre a Alex e o Miles extremamente bonita. A forma como se compreendem um ao outro e como se apoiam um no outro, mesmo nos momentos mais negros, torna esta relação muito acima da faixa da adolescência. A escrita da autora permite isso. É uma escrita direta, mas rodeada de sentimentalismo e de emotividade.

As personagens secundárias deste livro não são de todo relevantes. A história que gira à volta de uma das pessoas da escola não tem ligação direta com a história e cai ali um pouco de paraquedas. No entanto, há um acontecimento na escola que foi extremamente bem encaixado na condição da Alex.

Há um momento no livro, que não posso revelar porque seria um enorme spoiler, que me fez ficar muito surpreendida apesar da previsibilidade deste tipo de enredos. É mais um dos diferenciais deste livro!

Na globalidade foi um livro de que gostei muito e ao qual falta apenas qualquer coisinha para ser excelente. No entanto é um livro que mexe e que não deixa nenhum leitor indiferente.

A fábrica de bonecas – Elizabeth Macneal… por Andreia Silva

45835903._SY475_SINOPSE: Uma história inebriante sobre uma mulher que sonha ser artista e o homem cuja obsessão pode destruir o mundo dela para sempre.

Londres, 1850. O edifício que albergará a Grande Exposição está a ser construído em Hyde Park. No meio da multidão que ali se junta, duas pessoas encontram-se por mero acaso. Para Iris, uma aspirante a artista, aquele é apenas um encontro efémero, esquecido passados poucos segundos. Mas para Silas, um colecionador fascinado por coisas estranhas, aquele momento marca um novo começo…

Quando Iris é convidada a posar como modelo para Louis Frost, um pintor pré-rafaelita, ela aceita, com a condição de que Louis também a ensine a pintar. De súbito, o mundo de Iris transforma-se numa experiência dominada pelo amor e pela arte, indo além de tudo aquilo com que sempre sonhou.

Só que o mundo de Iris pode ruir a qualquer momento, pois Silas só consegue pensar numa coisa desde o primeiro encontro de ambos. E a sua obsessão torna-se cada vez mais sombria…

OPINIÃO: Passada na Londres Victoriana, “A Fábrica das Bonecas” centra-se em duas irmãs que trabalham numa loja de bonecas. As condições de trabalho são desumanas.

Por sua vez, Silas é um colecionador de coisas estranhamente mórbidas. Este cruza-se com Iris, umas das irmãs, e fica obcecado por ela. Iris aceita um convite de Louis para ser sua musa. Com isto, Silas fica ainda mais obcecado, até atingir o nível da insanidade.

Antes de mais tenho de congratular a editora por ter mantido uma das principais capas originais do livro. Outra capa não estaria tão de acordo com a história. Além de ser extremamente bonita, está carregada de pormenores que, depois de ler tudo, se encaixam totalmente no enredo.

São descritas, com algum pormenor, duas atividades semelhantes, mas ao mesmo tempo diferentes: pintar bonecas e embalsamar animais. Apesar das diferenças óbvias do produto que fabricam, têm uma coisa em comum: o processo de embelezamento. Aliás, é um dos focos deste livro, a beleza e a arte. Este foco do belo contrasta com mestria com esta Londres suja e degradada.

Os primeiros capítulos são muito interessantes, girando muito em volta das irmãs, da sua vida na loja e do alvoroço que a cidade experimenta com a chegada da Grande Exposição. Contudo, chega a um momento, mais ao menos a meio do livro, em que a narrativa, por ser muito descritiva, torna-se mais lenta e mais densa, acabando por deixar um toque de aborrecimento.

Gostei da forma como a relação entre Iris e Rose foi construída. Nota-se uma grande conexão entre as duas e um grande amor fraterno que acaba por condicionar ligeiramente o rumo da narrativa.

A obsessão do Silas pela Iris está muito bem conseguida. É uma obsessão doentia que transforma a mulher num objeto precioso, algo que nunca poderia ser estragado nem ter defeitos. Quando se apercebe que Iris, sendo humana, tem imperfeições, a obsessão chega a um ponto macabro. Os últimos capítulos, onde isto é mais evidente, estão muito bem escritos e descritos.

No entanto, o final chega demasiado rápido para aquilo que estava a ser prometido nas páginas anteriores. Fica imensa coisa por fechar que daria todo um outro brilho a esta história. O final poderia ter sido mais fechado, mais conclusivo.