As flores perdidas de Alice Hart – Holly Ringland… por Andreia Silva

42286845SINOPSE: Um romance sobre as histórias que deixamos por contar e sobre as que contamos a nós próprios para sobrevivermos.

Alice tem nove anos e vive num local isolado, idílico, entre o mar e os canaviais, onde as flores encantadas da mãe e as suas mensagens secretas a protegem dos monstros que vivem dentro do pai.

Quando uma enorme tragédia muda a sua vida irrevogavelmente, Alice vai viver com a avó numa quinta de cultivo de flores que é também um refúgio para mulheres sozinhas ou destroçadas pela vida. Ali, Alice passa a usar a linguagem das flores para dizer o que é demasiado difícil transmitir por palavras.

À medida que o tempo passa, os terríveis segredos da família, uma traição avassaladora e um homem que afinal não é quem parecia ser, fazem Alice perceber que algumas histórias são demasiado complexas para serem contadas através das flores. E para conquistar a liberdade que tanto deseja, Alice terá de encontrar coragem para ser a verdadeira e única dona da história mais poderosa de todas: a sua.

OPINIÃO: Alice tem nove anos e vive isolada do mundo, entre as flores encantadas da mãe e os monstros internos do pai. Quando algo de terrível acontece, Alice vai viver com a avó que também tem uma relação especial com as flores. À medida que vai ficando mais velha e que os caminhos da sua vida vão mudando, Alice vai descobrindo segredos e descobrindo-se a si mesma.

Estou com sentimentos contraditórios agora que terminei o livro… Fiquei muito indecisa na quantidade de estrelas a atribuir porque acho que o livro me queria dar mais e eu, se calhar, não consegui retirar mais emoção dele.

O início do enredo é um pouco lento. Parecia obcecado nas flores, mas felizmente não se centrou nisso, o que me agradou bastante. No entanto, mais para a frente, com o decorrer do enredo, é-nos dado a conhecer as descrições das flores e os seus significados, o que, apesar de interessante, corta um pouco o ritmo da leitura. Mas, mesmo assim, o tema está muito bem enquadrado na história. As flores trazem o espírito da renovação e da esperança e a história de Alice é carregada desse sentimento.

Gostei muito da construção do personagem do pai de Alice. Fisicamente, o personagem não tem muita intervenção na história mas espiritualmente ele está lá. Tem uma bipolaridade em termos de personalidade que chega a ser palpável. Transmite uma sensação de medo em cada fala, uma vez que não se sabe se ele vai ser bom ou mau.

A escrita da autora encanta pela forma como junta as palavras. Soa poética.

É um livro que, inevitavelmente vai tocar em cada pessoa de forma diferente, transmitindo sentimentos variados, que podem ir desde a tristeza, à nostalgia, à raiva ou à esperança.

O facto de a Alice ter uma paixão pelos livros, para além das flores, fez-me sentir muito próxima da personagem. É bom ver o crescimento de alguém, ainda que fictício, e entender que apesar das dificuldades existe sempre algo que nos faz olhar para o nascer do sol com outros olhos.

Apesar de tudo, senti que no fim faltou qualquer coisa… algo que me tocasse a mim em particular, algo que tivesse a ver com a minha personalidade e/ou disposição do momento. Acredito sinceramente que tocará a muita gente e que ficará no coração de muitos leitores.

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A menina do bosque – S.K. Tremayne… por Andreia Silva

9789898917386SINOPSE: É interessante estarem todos mortos, não é, mamã?
Todos os pássaros, tantos, todos eles estão mortos.
Confirmei.

Lyla tem 9 anos. Já está habituada a que os adultos não a levem a sério. Costuma ficar em silêncio por longos momentos sem que ninguém lhe consiga arrancar uma palavra. Ou fala por enigmas, difíceis de entender. A maioria dos temas são-lhe desconfortáveis, e tem muita dificuldade em fazer amigos. Os pais tentam ser compreensivos, mas nem sempre conseguem. Lyla prefere correr e dançar pelo bosque com os seus dois cães, os seus melhores amigos. Eles também gostam de andar livres e sem terem de responder a perguntas.

Até que acontece o acidente.
Quando o carro da mãe se despista e esta sobrevive milagrosamente, a vida de todos muda. Mas Lyla sabe que algo mais aconteceu e tenta explicar que as coisas não são assim tão simples.
Há um homem. Um homem que está sempre lá.
Mas ninguém acredita.
Ninguém entende.

OPINIÃO: Lyla tem 9 anos e vive num recanto isolado e sombrio com os pais. Lyla, que não tem o rótulo de autista apenas porque os pais não aceitam, vive num mundo onde não é compreendida e onde, muitas vezes, não compreende o que se passa à sua volta.

Quando a mãe aparentemente se tenta suicidar, tudo muda. Lyla quer contar coisas que sabe. Ninguém vai acreditar, mas também Lyla não sabe como as explicar.

Neste “A Menina do Bosque” o autor continua a seguir a linha dos dois livros anteriores. Não pelo facto de serem os três thrillers, mas pelas constantes: crianças misteriosas e lugares isolados de muito frio. Esta história, passada na Inglaterra, está descrita de tal forma pormenorizada que transmite mesmo as sensações de lá estar. Dá para sentir o frio e o vento cortante!

A construção desta menina, com um “não definido Síndrome de Asperger”, está extremamente bem conseguida. Todos os pensamentos que ela tem e as atitudes que ela toma, que estão de acordo com o espetro, confere ainda mais mistério à história. Aliás, está tudo mesmo muito bem pensado em relação a ela. Este enredo não poderia existir sem esta personagem e foi, sem dúvida, um dos aspetos determinantes para me levar a gostar tanto do livro. É imprevisível e isso fez-me querer virar continuamente as páginas.

Apesar de todo o mistério à volta do que aconteceu com a mãe de Lyla, e de existir sempre algumas reviravoltas/revelações em cada capítulo, o enredo acaba por ser um bocado lento. Nunca se torna enfadonho, mas o leitor acaba por desesperar ligeiramente por desvendar tudo de uma vez e o autor obriga-o a mastigar devagarinho os factos. Não o torna mau, torna-o diferente dentro do género.

Em suma, foi uma leitura que me agradou bastante e que me deixou constantemente interessada em saber o que aconteceria, não só no final, mas em todos os capítulos. Tem um bom mistério com um toque fantasioso à mistura que também agradará a muita gente.

O quarto da mãe – Sérgio Mendes… por Andreia Silva

40239977SINOPSE: Eu sei que a mãe está doente. Às vezes, grita e dá murros no teclado, fala sozinha na varanda. Eu sei que faz isso por ter sofrido muito em Leninegrado. Ela disse-me que comia gelo e sementes que apanhava no pátio. Disse-me que perdeu o pai e a mãe naquele inverno.

O meu pai fugiu para França, levou a G3, mas envia-nos dinheiro todos os meses. A mãe deixou de dar aulas de piano e não faz de comer. Levanta-se depois do meio-dia e eu nunca ouço a porta do quarto a abrir. Fecha-se na casa de banho e aparece tal e qual como no dia anterior, vestida com madeixas louras e sem o meu sorriso. A mãe tem as coxas e os braços cheios de negras. Não dizemos bom-dia nem ela diz o meu nome. Senta-se de cócoras diante da janela grande da sala e fuma o primeiro cigarro da manhã. Fica sentada a olhar os campos e os choupos e eu olho-a atrás das duas portas vidradas. Se ela começa a chorar ou a tossir pelo fumo que lhe esconde o rosto, começo a correr pela alcatifa e peço-lhe:
– Mãe, vamos comprar pão.
Ela levanta-se, abre a bolsa para contar o dinheiro e vamos de mãos dadas até à pastelaria, atravessando jardins floridos de cardeais e amores-perfeitos.

OPINIÃO: “O Quarto da Mãe” traz-nos o relato de dois filhos. As mães, de tempos diferentes, são ambas iguais em sofrimento e em angústia.

O livro está dividido em duas partes, cada uma situada num tempo e num espaço diferente. Porém, com algo em comum:  a existência da mãe.

Na primeira parte, ambientada em 1941 na União Soviética, é-nos apresentada uma mulher através dos olhos da sua filha. É uma época histórica que não foi fácil e nesta parte são usadas muitas descrições de um ambiente em guerra que ajudam o leitor a visualizar o contexto de forma mais nítida.

É uma narrativa com uma escrita densa, mas que é feita com recurso a frases curtas. No entanto, por vezes, sente-se uma certa interrupção na fluidez da leitura.

A segunda parte, passada em Portugal nos inícios dos anos 80, traz-nos o neto daquela filha, a narradora da primeira parte. Quarenta e dois anos depois, esta geração mais moderna continua envolta em melancolia e a carregar a dor do passado.

Tal como na parte anterior, a escrita é poética e profunda, chegando a sentir-se pesada em alguns momentos. Parece que o sofrimento chega até quem lê. Sendo a intenção do autor, foi bem conseguida. No entanto, esta leitura teve momentos que me pareceram repetitivos, não tendo um objetivo final.

Apesar da leitura ser relativamente rápida, a história em si exige do leitor um tempo extra para poder ser percecionada na sua totalidade. Não é um livro que vá agradar a uma vasta gama de leitores. É um livro direcionado para alguém que goste de ler e de refletir em simultâneo, não tendo uma história linear por detrás.

Tu és meu! – J.L.Butler… por Andreia Silva

th_72414cb6a57e756d13984d10339137c1_15473765409789897771613TuÉsMeucapaemBaixaAlta.jpgSINOPSE: E se se apaixonou por alguém que não devia?
E se a sua relação ameaça destruir a carreira?
E se começar a suspeitar que a sua paixão pode ter cometido assassínio?

A jovem advogada Francine Day construiu metodicamente a carreira fazendo sempre o que estava certo.
Mas quando conhece o novo cliente, Martin Joy, a cautela inata que a protegeu e fomentou a sua ascensão evapora-se.
De repente, Francine vê-se envolvida num perigoso labirinto de enganos, mentiras e segredos, em que um passo em falso pode significar a sua ruína.

Quanto mais longe vai em busca de respostas mais a rede parece apertar-se à volta do amante, dela e da vida que de forma tão meticulosa construiu..

OPINIÃO: Francine Day é uma advogada especializada em divórcios que está na iminência de conseguir um cargo importante onde só chegam os melhores e mais dedicados. Quando conhece o seu novo cliente, Martin Joy, fica logo em estado de alerta. A atração entre ambos é inevitável e transforma-se rapidamente num caso amoroso. Martin garante que o seu casamento acabou, mas, numa noite, Francine segue-o e vê-o com a ex-mulher. No dia seguinte, a ex-mulher desaparece. Será Martin culpado?

Antes de iniciar a leitura, olhando apenas para a capa e para a (exageradamente grande) sinopse, fiquei com a sensação de que poderia estar perante um romance comum. Não que isso seja mau, mas penso que não seria essa a intenção. Confesso que achei o começo um pouco lento, como se não houvesse nada para ser descoberto. Estava mesmo convencida de que teria nas mãos um tal romance comum. Agradável, mas comum.

O livro está escrito na primeira pessoa, sob a perspetiva da Francine, e é notória a dicotomia entre a mulher bem sucedida, prestes a concorrer a algo enorme, e a mulher dotada de uma fragilidade emocional que se chega a anular a si mesma por uma paixão (quase) sem limites. Gostei muito desta forma de escrita que coloca o leitor na pele da personagem.

O Martin é um personagem que me trouxe sentimentos diversos, até contraditórios, ao longo de toda a narrativa. Cheguei a franzir o sobrolho, com alguma ressalva, duvidando das palavras dele, e cheguei a não gostar mesmo dele, achando que ele poderia ser algo de negro na vida da Francine. Tal como a Francine duvidou, também eu senti essa dúvida quase até ao final.

Os são capítulos curtos e terminam em suspense, o que torna difícil pousar o livro. Não é que exista um grande crime para resolver ou uma investigação rigorosa detalhada para acompanhar, mas o mistério associado ao desaparecimento da ex-mulher de Martin confere um lado sombrio ao livro, deixando-o por vezes frenético.

O romance em si, sendo uma parte fulcral do livro, está bem construído, apesar de ter um certo efeito instantâneo que pode não ser muito convincente. Gostei da forma como o autor o foi desenvolvendo e de como o fez evoluir lado a lado com o mistério. É um livro bom, com uma narrativa que envolve e que prende o leitor. Recomendado a todos que gostem de um romance não tão cor de rosa!

Culpa – Jeff Abbott… por Andreia Silva

250x.jpgSINOPSE: Há dois anos, Jane Norton esteve envolvida num acidente de automóvel que vitimou o seu amigo David e a deixou com amnésia. Ao início, todos são compreensivos em relação ao sucedido, mas o aparecimento de um bilhete de suicídio assinado por Jane no local do acidente gera a desconfiança, o ressentimento e o afastamento de todos aqueles que os conheciam.

Para além de continuar a enfrentar a suspeita e a hostilidade da cidade onde vive, o aniversário do acidente traz novos problemas: a campa de David é vandalizada e Jane começa a receber mensagens anónimas através das redes sociais. Alguém com um nome falso diz saber o que verdadeiramente aconteceu na noite fatídica de que ela não se lembra. Jane, desesperada por obter respostas a todas as questões que a atormentam, lança-se numa investigação frenética que pode, mais uma vez, colocá-la perante um destino mortífero.

Com uma escrita ágil, viciante e atual, Jeff Abbott reafirma o seu talento como um dos mestres mundiais do suspense, construindo um thriller cujo enredo original, as surpresas constantes e, acima de tudo, a profundidade psicológica das personagens são marcas de um romance negro de primeira ordem.

OPINIÃO: Jeff Abbott traz-nos a história de Jane. Há dois anos, Jane esteve envolvida num acidente que lhe tirou a memória dos três anos anteriores e que vitimou o seu amigo David. Todos a culpam pela morte dele. As pessoas alegam que ela queria matar-se, levando David consigo. Mas se ela não se lembra. Como podem ter todos tanta certeza?

Esta sinopse chamou-me desde logo a atenção. O mistério à volta da falta da memória, associada a um acidente que a própria não consegue explicar, tornou tudo desde logo interessante. E, de facto, começou bem. A escrita do autor é intrigante, criando personagens ambíguas que torna o suspense ainda mais perturbador.

Quando se começa a levantar um bocadinho mais o véu, fica a ideia de que o autor trava o leitor no intuito de que este descubra tudo de uma vez no final. O meio do livro, ainda que este não esteja dividido em partes, é um pouco mais lento do que as partes inicial e final, e isto pode desencorajar alguns leitores. É pena se isso acontecer, porque a parte final é alucinante! Nesta fase, os capítulos tornam-se mais curtos, o que incentiva ainda mais o vício. Além disso, é um final inesperado. Confesso que pensei em algumas possibilidades de desfecho, mas aquela que foi escrita não me tinha passado pela cabeça. A que se deve isso? À tal ambiguidade dos personagens.

Gostei do triângulo amoroso que vai sendo descrito à medida que história avança e gostei principalmente da forma subtil como ele é apresentado e do papel que tem na resolução do mistério. Parece que um triângulo amoroso não se encaixaria num livro de suspense, mas este está muito bem interligado.

É um livro bom, especialmente o início e o final, que deixa o leitor agarrado à história de Jane. Conseguimos sentir o sufoco que ela sente por não saber em quem confiar, especialmente por não saber sequer o que ela pensava no momento da tragédia. E por sentirmos tudo tão próximo, lê-se página a página de um só fôlego.