A história do novo nome – Elena Ferrante (A amiga genial #2)

33136863SINOPSE: Este romance continua a história de Lila e Elena, tendo como pano de fundo a cidade de Nápoles e a Itália do século xx. Lila, filha de um sapateiro, escolhe o caminho de ascensão social no próprio bairro e, no final de A Amiga Genial, vemo-la casada com um comerciante. Elena, pelo contrário, dedica-se aos estudos. Ambas têm agora 17 anos e sentem-se num beco sem saída. Ao assumir o nome do marido, Lila tem a sensação de ter perdido a identidade. Elena, estudante modelo, descobre que não se sente bem nem no bairro nem fora dele. No início, vemos Elena a abrir um caderno de notas onde Lila fala sobre a vida com o seu marido e as complicadas relações com a Mafia e os grupos neofascistas, que invadem os bairros com as suas proclamações. Lila e Elena hesitam entre a tendência para a conformidade e a obstinação em tomar nas suas mãos o seu destino, numa relação conflitual, inseparável mistura de dependência e vontade de autoafirmação, em que o amor é um sentimento «molesto» que se alimenta do desequilíbrio até nos momentos mais felizes.

OPINIÃO: Lila e Lenú cresceram. Ainda não mulheres, mas já não crianças, as duas amigas veem-se de braço dado com as turbulências da juventude e com as decisões que precisam de tomar antes de entrar na vida adulta.

Uma história de outros tempos, dois caminhos que foram seguidos.

Lila enfrenta as complicações de um casamento prematuro. O seu temperamento irascível, que aprendemos a tolerar (nunca a entender, isso é impossível!), perde a beleza para Stefano. O marido, outrora namorado atento e babão, sendo um homem do seu tempo, exige agora certos comportamentos da mulher, inclusive obediência. Neste segundo volume já conhecemos Lila o suficiente para sabermos o quão mal ela lidará com este seu novo estilo de vida.

Lenú, por sua vez, segue o seu percurso académico. Obcecada pela ascensão social académica e enamorada por Nino, o lado mais calmo desta amizade vai se ver de braço dado com as suas próprias ansiedades. Contudo, como não poderia deixar de ser, Lila irá interferir na “paz” de Lenú, atirando para cima da amiga de infância um rol de problemas que não só se mostrarão serem perigosos como mexerão com os sentimentos de Lenú.

A “História do novo nome” avança com a narrativa e muitas reviravoltas se evidenciam, sobretudo na segunda metade do livro. Continua a ser uma história sobre vidas, sem aquele plot linear característico da ficção. E o que é a vida senão escolhas e tomadas de decisão? É impossível ficar indiferente às opções que Lila toma, aos caminhos que escolhe para si. Reviramos os olhos, ficamos loucos com a incapacidade dela de controlar as suas emoções. Lila é um espírito selvagem, complexo, dependente da sua independência, mimada (sem o ser) e com fome de atenção (sem a realmente a querer).

Contudo, também assistimos ao amadurecimento de Lenú e conhecemos um pouco do seu lado menos altruísta. Abrir o leque de defeitos de Lenú foi uma baforada de ar fresco, pois temia que a personagem se tornasse irrealista com a sua passividade. Afinal, todos cometemos erros, todos agimos por impulso uma vez por outra e, sobretudo, todos temos o “dom” de magoar alguém. Mesmo aqueles que costumam ser magoados.

A Itália de Ferrante continua um sítio maravilhoso para visitar. Neste volume, conhecemos outros cenários e revisitamos os antigos, assistindo às inevitáveis mudanças que o tempo traz.

A autenticidade deste povo continua a ser um dos maiores trunfos desta obra e, apesar de “A amiga genial” ter aquele toque especial por relatar a infância, a “História do novo nome” não perde o encanto e consegue manter-nos interessados em acompanhar o crescimento destas meninas e de quem com elas se cruza.

Para ler, para reler, para guardar para a velhice.

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As flores perdidas de Alice Hart – Holly Ringland… por Andreia Silva

42286845SINOPSE: Um romance sobre as histórias que deixamos por contar e sobre as que contamos a nós próprios para sobrevivermos.

Alice tem nove anos e vive num local isolado, idílico, entre o mar e os canaviais, onde as flores encantadas da mãe e as suas mensagens secretas a protegem dos monstros que vivem dentro do pai.

Quando uma enorme tragédia muda a sua vida irrevogavelmente, Alice vai viver com a avó numa quinta de cultivo de flores que é também um refúgio para mulheres sozinhas ou destroçadas pela vida. Ali, Alice passa a usar a linguagem das flores para dizer o que é demasiado difícil transmitir por palavras.

À medida que o tempo passa, os terríveis segredos da família, uma traição avassaladora e um homem que afinal não é quem parecia ser, fazem Alice perceber que algumas histórias são demasiado complexas para serem contadas através das flores. E para conquistar a liberdade que tanto deseja, Alice terá de encontrar coragem para ser a verdadeira e única dona da história mais poderosa de todas: a sua.

OPINIÃO: Alice tem nove anos e vive isolada do mundo, entre as flores encantadas da mãe e os monstros internos do pai. Quando algo de terrível acontece, Alice vai viver com a avó que também tem uma relação especial com as flores. À medida que vai ficando mais velha e que os caminhos da sua vida vão mudando, Alice vai descobrindo segredos e descobrindo-se a si mesma.

Estou com sentimentos contraditórios agora que terminei o livro… Fiquei muito indecisa na quantidade de estrelas a atribuir porque acho que o livro me queria dar mais e eu, se calhar, não consegui retirar mais emoção dele.

O início do enredo é um pouco lento. Parecia obcecado nas flores, mas felizmente não se centrou nisso, o que me agradou bastante. No entanto, mais para a frente, com o decorrer do enredo, é-nos dado a conhecer as descrições das flores e os seus significados, o que, apesar de interessante, corta um pouco o ritmo da leitura. Mas, mesmo assim, o tema está muito bem enquadrado na história. As flores trazem o espírito da renovação e da esperança e a história de Alice é carregada desse sentimento.

Gostei muito da construção do personagem do pai de Alice. Fisicamente, o personagem não tem muita intervenção na história mas espiritualmente ele está lá. Tem uma bipolaridade em termos de personalidade que chega a ser palpável. Transmite uma sensação de medo em cada fala, uma vez que não se sabe se ele vai ser bom ou mau.

A escrita da autora encanta pela forma como junta as palavras. Soa poética.

É um livro que, inevitavelmente vai tocar em cada pessoa de forma diferente, transmitindo sentimentos variados, que podem ir desde a tristeza, à nostalgia, à raiva ou à esperança.

O facto de a Alice ter uma paixão pelos livros, para além das flores, fez-me sentir muito próxima da personagem. É bom ver o crescimento de alguém, ainda que fictício, e entender que apesar das dificuldades existe sempre algo que nos faz olhar para o nascer do sol com outros olhos.

Apesar de tudo, senti que no fim faltou qualquer coisa… algo que me tocasse a mim em particular, algo que tivesse a ver com a minha personalidade e/ou disposição do momento. Acredito sinceramente que tocará a muita gente e que ficará no coração de muitos leitores.

A menina do bosque – S.K. Tremayne… por Andreia Silva

9789898917386SINOPSE: É interessante estarem todos mortos, não é, mamã?
Todos os pássaros, tantos, todos eles estão mortos.
Confirmei.

Lyla tem 9 anos. Já está habituada a que os adultos não a levem a sério. Costuma ficar em silêncio por longos momentos sem que ninguém lhe consiga arrancar uma palavra. Ou fala por enigmas, difíceis de entender. A maioria dos temas são-lhe desconfortáveis, e tem muita dificuldade em fazer amigos. Os pais tentam ser compreensivos, mas nem sempre conseguem. Lyla prefere correr e dançar pelo bosque com os seus dois cães, os seus melhores amigos. Eles também gostam de andar livres e sem terem de responder a perguntas.

Até que acontece o acidente.
Quando o carro da mãe se despista e esta sobrevive milagrosamente, a vida de todos muda. Mas Lyla sabe que algo mais aconteceu e tenta explicar que as coisas não são assim tão simples.
Há um homem. Um homem que está sempre lá.
Mas ninguém acredita.
Ninguém entende.

OPINIÃO: Lyla tem 9 anos e vive num recanto isolado e sombrio com os pais. Lyla, que não tem o rótulo de autista apenas porque os pais não aceitam, vive num mundo onde não é compreendida e onde, muitas vezes, não compreende o que se passa à sua volta.

Quando a mãe aparentemente se tenta suicidar, tudo muda. Lyla quer contar coisas que sabe. Ninguém vai acreditar, mas também Lyla não sabe como as explicar.

Neste “A Menina do Bosque” o autor continua a seguir a linha dos dois livros anteriores. Não pelo facto de serem os três thrillers, mas pelas constantes: crianças misteriosas e lugares isolados de muito frio. Esta história, passada na Inglaterra, está descrita de tal forma pormenorizada que transmite mesmo as sensações de lá estar. Dá para sentir o frio e o vento cortante!

A construção desta menina, com um “não definido Síndrome de Asperger”, está extremamente bem conseguida. Todos os pensamentos que ela tem e as atitudes que ela toma, que estão de acordo com o espetro, confere ainda mais mistério à história. Aliás, está tudo mesmo muito bem pensado em relação a ela. Este enredo não poderia existir sem esta personagem e foi, sem dúvida, um dos aspetos determinantes para me levar a gostar tanto do livro. É imprevisível e isso fez-me querer virar continuamente as páginas.

Apesar de todo o mistério à volta do que aconteceu com a mãe de Lyla, e de existir sempre algumas reviravoltas/revelações em cada capítulo, o enredo acaba por ser um bocado lento. Nunca se torna enfadonho, mas o leitor acaba por desesperar ligeiramente por desvendar tudo de uma vez e o autor obriga-o a mastigar devagarinho os factos. Não o torna mau, torna-o diferente dentro do género.

Em suma, foi uma leitura que me agradou bastante e que me deixou constantemente interessada em saber o que aconteceria, não só no final, mas em todos os capítulos. Tem um bom mistério com um toque fantasioso à mistura que também agradará a muita gente.

O quarto da mãe – Sérgio Mendes… por Andreia Silva

40239977SINOPSE: Eu sei que a mãe está doente. Às vezes, grita e dá murros no teclado, fala sozinha na varanda. Eu sei que faz isso por ter sofrido muito em Leninegrado. Ela disse-me que comia gelo e sementes que apanhava no pátio. Disse-me que perdeu o pai e a mãe naquele inverno.

O meu pai fugiu para França, levou a G3, mas envia-nos dinheiro todos os meses. A mãe deixou de dar aulas de piano e não faz de comer. Levanta-se depois do meio-dia e eu nunca ouço a porta do quarto a abrir. Fecha-se na casa de banho e aparece tal e qual como no dia anterior, vestida com madeixas louras e sem o meu sorriso. A mãe tem as coxas e os braços cheios de negras. Não dizemos bom-dia nem ela diz o meu nome. Senta-se de cócoras diante da janela grande da sala e fuma o primeiro cigarro da manhã. Fica sentada a olhar os campos e os choupos e eu olho-a atrás das duas portas vidradas. Se ela começa a chorar ou a tossir pelo fumo que lhe esconde o rosto, começo a correr pela alcatifa e peço-lhe:
– Mãe, vamos comprar pão.
Ela levanta-se, abre a bolsa para contar o dinheiro e vamos de mãos dadas até à pastelaria, atravessando jardins floridos de cardeais e amores-perfeitos.

OPINIÃO: “O Quarto da Mãe” traz-nos o relato de dois filhos. As mães, de tempos diferentes, são ambas iguais em sofrimento e em angústia.

O livro está dividido em duas partes, cada uma situada num tempo e num espaço diferente. Porém, com algo em comum:  a existência da mãe.

Na primeira parte, ambientada em 1941 na União Soviética, é-nos apresentada uma mulher através dos olhos da sua filha. É uma época histórica que não foi fácil e nesta parte são usadas muitas descrições de um ambiente em guerra que ajudam o leitor a visualizar o contexto de forma mais nítida.

É uma narrativa com uma escrita densa, mas que é feita com recurso a frases curtas. No entanto, por vezes, sente-se uma certa interrupção na fluidez da leitura.

A segunda parte, passada em Portugal nos inícios dos anos 80, traz-nos o neto daquela filha, a narradora da primeira parte. Quarenta e dois anos depois, esta geração mais moderna continua envolta em melancolia e a carregar a dor do passado.

Tal como na parte anterior, a escrita é poética e profunda, chegando a sentir-se pesada em alguns momentos. Parece que o sofrimento chega até quem lê. Sendo a intenção do autor, foi bem conseguida. No entanto, esta leitura teve momentos que me pareceram repetitivos, não tendo um objetivo final.

Apesar da leitura ser relativamente rápida, a história em si exige do leitor um tempo extra para poder ser percecionada na sua totalidade. Não é um livro que vá agradar a uma vasta gama de leitores. É um livro direcionado para alguém que goste de ler e de refletir em simultâneo, não tendo uma história linear por detrás.

Carbono alterado – Richard Morgan

38495149SINOPSE: Uma mistura violenta e frenética de William Gibson, cinema japonês, policial negro e “Blade Runner”. No século XXV é difícil morrer para sempre. Os humanos têm um stack implantado nos corpos onde a sua consciência é armazenada, podendo fazer download para um novo corpo sempre que necessário. Quando o multimilionário Laurens Bancroft contrata Takeshi Kovacs para descobrir quem assassinou o seu último corpo, o caso parece bicudo: a polícia diz que foi suicídio, Bancroft tem a certeza que não. A consciência de Kovacs, cujo último corpo acabara de ter uma morte violenta, é inserida no corpo de um polícia para investigar o caso. E, para o resolver, Kovacs terá de destruir inimigos do passado e lidar com a atracção por Kristin Ortega, a mulher que amava o corpo onde ele agora se encontra. Num mundo onde a tecnologia oferece o que a religião apenas promete, onde os interrogatórios em realidade virtual significam que se pode ser torturado até à morte e depois recomeçar de novo, e onde existe um mercado negro de corpos, Kovacs sabe que a última bala que lhe desfez o peito é apenas o começo dos seus problemas…

OPINIÃO: Quando a Netflix liberou os 10 episódios da série Carbono Alterado em fevereiro de 2018, a curiosidade tomou conta de mim e investi logo o meu tempo no primeiro episódio. Contudo, após os olhos teimarem em fechar algumas vezes e de torcer o nariz com a representação do ator, que me parecia deveras forçada, desisti da série logo no final do episódio piloto. Então pensei: e o livro? O livro pode ser melhor! Investi o meu tempo no livro. Li cerca de 100 páginas e pousei-o. Conclusão: não é livro para mim.

O que me desagradou afinal?

Esta história tem uma premissa excelente. O ser humano conseguiu fintar a morte, mas a identidade acabou por se perder no processo. É uma narrativa do género ficção científica, muito elaborada e extremamente complexa. São imensos os termos que nos são lançados. A sociedade não se assemelha muito à que temos hoje, pelo que a leitura requer uma atenção redobrada para que consigamos, desde logo, situarmo-nos. Porém, a este mundo, que servia por si só para construir o enredo, é acrescentado um crime, um protagonista com um historial de vida que além de longo é difuso, toda uma seita que conspira contra o sistema da vida eterna, prisões que são locais de armazenamento de dados… Algumas páginas volvidas e estava a respirar fundo e a voltar para trás para tentar captar toda a informação que estava a ser despejada para cima de mim, sem muita explicação. Os personagens falam e nós temos de entender. Normalmente, quando isto acontece e não atinjo logo os termos, aguardo e situo-me pelo contexto. Aqui, isso não acontece. Ainda não entendi bem como funciona o processo do armazenamento e já me estou a debater com o processo de aprisionamento, e a tentar localizar no tempo (de centenas de anos) a origem dos personagens, ou o facto de o gajo mais rico da história ter cópias de si mesmo armazenadas em países diferentes, ou de como a comunidade mundial funciona, e dos grupos anti-vida eterna que se vão criando… e já estou com dor de cabeça e torno a voltar atrás e não há mais informação. Se calhar sou eu que quero perceber mais do que aquilo que o autor me quer dar a conhecer. Se calhar sou eu que questiono demasiado na minha cabeça se aquilo terá lógica e não consigo responder a estas minhas questões porque não sei mais do que aquilo que o personagem disse, e é pouco. São só mesmo aquelas menções e frases soltas que me são oferecidas e eu continuo às escuras. E atenção que só li cerca de 100 páginas! Pelos vistos, o enredo do crime toma mesmo conta de tudo e é por esse caminho que a história se desenvolve.

Com muita pena minha, pouso-o devagarinho e admito que não tenho paciência para este livro, para este género de escrita vago e cheio (não sei se entendem bem o que quero dizer). Não consigo, simplesmente, deixar-me levar pelo dia-a-dia de um mundo que não conheço. Antes disso, tenho de percebê-lo, tem de me ser dada informação suficiente para que eu consiga assentar os meus pés naquela terra. Calma!!!! Já me esquecia que os seres humanos estão dispersos por vários planetas e algumas viagens não são feitas fisicamente, abandonam o corpo aqui e adquirem outro lá. Mas parece que há um problema de habituação ao novo corpo e a coisa pode complicar, mas há homens que acordam logo em campo de guerra e é levantar e combater, sem que o processo os aflija muito… tipo… eu sei… what? Too much information!!!! 

A série está com 8.2 no IMDB, pelo que talvez (um talvez bué tremidinhooooo) dê uma chance ao episódio 2 e 3. O livro tem 4.06 no Goodreads, pelo que me parece que haverá muita gente que acabou por desfrutar da leitura. Ou então são leitores e espetadores que pensam assim: “Ei lá! Não estou a perceber a ponta de ** ***** desta história. O autor é um gajo bué inteligente. Só por isso, merece as 4/5*…” Believe me, há muita gente que faz isso, que pensa assim.

Whatever… Arrisquem. Pode ser que gostem.