O medo – C.L. Taylor

41197689SINOPSE: Quando Ben, o novo namorado de Louise, a tenta levar numa viagem-surpresa a França, ela entra em pânico, sai do carro e foge. Ben não entende. Não pode entender, porque não sabe o que aconteceu a Louise da última vez que um namorado a levou pelo canal da Mancha. Ela tinha 14 anos. Mike tinha 31. E o que aconteceu deixou marcas em Louise para sempre.

Hoje com 32 anos, Louise nunca conseguiu ter uma relação estável. Guarda o seu segredo inconfessável dentro do peito e, por isso, ninguém a conhece verdadeiramente. Depois do que aconteceu com Ben, decide fugir do mundo e isolar-se. Abandona Londres, deixa os amigos e começa a procurar um novo emprego perto da casa onde cresceu, que agora lhe pertence.

Ao instalar-se, descobre que Mike, agora com 49 anos, ainda vive e trabalha na vila. Quando o vê a beijar uma rapariga de 13 anos, Louise decide que já chega.

Está na altura de Mike sentir o medo com que Lou vive desde aquela viagem.

OPINIÃO: Este é o segundo livro que leio de C. L. Taylor e tenho a certeza de que não será o último. Lembro-me de ficar agarrada às páginas de “Desaparecido” , de a história fluir dentro de mim com uma naturalidade desconcertante. Na altura, atribuí-lhe, sem qualquer reticência, as cinco estrelas. E hoje, tendo em conta a memória vívida que guardo da leitura prazerosa que foi, sei que lhe dava a mesma cotação.

“O Medo” tem uma história intrigante e, apesar de não ter conquistado a ribalta, que ainda pertence ao “Desaparecido”, foi uma leitura interessante e que me deixou de curiosa, com vontade de ler mais, muitas vezes. Fui transportada para um rol de acontecimentos difíceis de engolir, uma vez que estamos perante um enredo que explora uma relação entre um adulto e uma adolescente.

O tema é complexo. Sabemos que as pessoas têm o horrível hábito de tecer opiniões extremamente desagradáveis nestas situações em que uma adolescente se envolve com um homem adulto. Há aquela tendência de apontar o dedo à adolescente e dizer que ela não é assim tão inocente quanto isso. Apesar de poderem existir situações dessas, eu acredito que só quem passa por elas é que sabe realmente o tamanho de trauma que carrega.

Independentemente de haver consentimento (inicial ou posterior), está em causa a vida de uma menor. Para quem não sabe, a pedofilia enquadra-se nos crimes contra a autodeterminação sexual. É justo a sociedade considerar que uma miúda (ou rapaz) de treze ou catorze anos (já não estou a falar de crianças porque isso é simplesmente monstruoso) não tem a capacidade suficiente para tomar a decisão de se entregar sexualmente a um adulto.

O código penal português diz o seguinte:

Artigo 173.º
Actos sexuais com adolescentes

1 – Quem, sendo maior, praticar ato sexual de relevo com menor entre 14 e 16 anos, ou levar a que ele seja praticado por este com outrem, abusando da sua inexperiência, é punido com pena de prisão até 2 anos.
2 – Se o ato sexual de relevo consistir em cópula, coito oral, coito anal ou introdução vaginal ou anal de partes do corpo ou objetos, o agente é punido com pena de prisão até 3 anos.
3 – A tentativa é punível.

A nossa lei refere-se à inexperiência, exatamente o que foi explorado neste livro. Está em causa a autodeterminação sexual desta(s) menina(s).

Em “O Medo” somos guiados pela protagonista, Lou. Desde logo percebemos que há qualquer coisa nesta mulher adulta que não está bem. Lou não consegue manter relacionamentos, tem dificuldades em se entregar às pessoas, em criar laços fortes com alguém, sejam estes amorosos ou de amizade. Lou carrega um peso sobre ela que nunca resolveu. E este remonta ao início da sua adolescência.

A história de como Lou se envolveu com Mike é contada em capítulos intercalados. O presente e passado misturam-se com mestria, manipulando a nossa opinião até ao desfecho. O que é certo é que ficamos sempre na expetativa ao encerrar de cada capítulo.

Caminhamos por esta relação ao ritmo que ela foi evoluindo e vamos pensando: “O que é que aconteceu, afinal?”

O que traumatizou realmente Lou surge finalmente, mas não em catadupa. As ações são subtis e o entendimento tardio, tal como eu acredito que deve acontecer na vida real numa situação deste género. O que existe ali vai-se quebrando e deixando mazelas, através de olhares, gestos e, por fim, ações. As palavras não estão em sintonia com o que  se está a viver, porque são elas que servem para manipular. Chega a um ponto em que só sobra isso e já não surte efeito desejado, já não apaziguam. O que era, supostamente, amor, dá lugar ao medo.

O leitor debate-se com o que vai sentindo Lou ao longo de todo o livro. Nem ela sabe. A sua cabeça foi confundida, a sua existência foi testada ao limite. O que ela acreditava tão piamente caiu por terra e o que aconteceu de bom é agora negro e impossível de gerir. Ela tinha 14 anos… Hoje é uma mulher adulta, mas o redemoinho de emoções está lá. A isto se chama um trauma. Mike impediu que Lou se autodetermina-se sexualmente e agora Lou sofre com isso.

O livro tem um enredo atual a desenrolar-se. Porém, foi nos aspetos emocionais que me foquei mais, porque acho que é aqui que a autora brilha: na sua capacidade de nos obrigar a pensar nas coisas, de nos fintar as certezas.

Mas aqui não há culpa de ambos os lados. Aqui, (quem tenha 2 dedos de testa) é impossível não saber quem é o verdadeiro vilão.

Ao contrário de “Desaparecido”, “O Medo” tem o seu vilão vincado desde o início: Mike. Nunca, nem por um segundo, foi possível ver este homem com bons olhos. A sua personalidade, as suas linhas de diálogo, as suas ações, o seu jeito dengoso e agressivo apontam imediatamente para alguém que não merece qualquer simpatia.

Mike não tem um plot próprio. Tudo o que vamos sabendo sobre ele é através das suas vítimas. Nenhuma delas tem credibilidade para o embelezar aos nossos olhos e isso ajudou a prever o final. Tendo em conta o que fui achando dele, não consegui surpreender-me com a derradeira revelação.

É um livro bom, de rápida leitura e com um tema pertinente. Não é o melhor da autora, mas é suficientemente bom para ganhar lugar cativo na minha estante ao lado dos “irmãos”.

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