Entrevista a KAREN DIONNE autora de A FILHA DO PÂNTANO // HarperCollins

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A FILHA DO PÂNTANO é uma história carregada de suspense psicológico, mas também é uma espécie de romance de «regresso à natureza». de que é que trata?
A FILHA DO PÂNTANO é a história de uma mulher cujo pai foge de uma prisão de segurança máxima e se dirige para o lugar onde ela se encontra através dos pântanos e do território selvagem da Península Superior do Michigan. Só a Helena possui a destreza necessária para o capturar porque cresceu no pântano e viveu com
a mãe e o pai em completo isolamento até aos doze anos. Embora nunca tenha chegado a ver um único humano durante todo esse tempo, a Helena adorava a sua vida… até saber que o pai raptara a mãe quando esta era adolescente e que ela era o resultado desse rapto.
Agora que é uma mulher adulta e tem as suas próprias filhas, a Helena tem de usar as estratégias de caça e de seguimento de pistas que aprendeu com o pai quando era pequena para o procurar e encontrar antes que ele a rapte, a si e às suas filhas
pequenas.

 
O romance passa-se na Península Superior do Michigan, um lugar que conhece bem. Que experiências invulgares da sua própria vida transferiu para a Helena?
Nos anos setenta, eu e o meu marido estabelecemo-nos na Península Superior do Michigan com a nossa filha pequena e vivemos numa tenda de campismo enquanto construíamos a nossa cabana minúscula; transportávamos água de um riacho
nas proximidades e provávamos alimentos silvestres, portanto, sem dúvida que transferi para a Helena o meu amor por lugares selvagens e a minha desenvoltura na natureza.
E, embora nunca tenha enfrentado um urso, como acontece à Helena no romance, estive bastante próxima disso. Uma vez, a meio de uma caminhada até um pomar abandonado atrás da nossa cabana, deparei-me com uma montanha de
excrementos de urso tão recente que praticamente fumegava. Decidi abandonar os meus planos para apanhar maçãs nesse dia, não conseguia imaginar-me a fugir de um urso e a subir a uma árvore com a minha filha pequena às costas!

 
Então, todas essas estratégias de sobrevivência e de contacto com a natureza que a Helena possui fazem parte do seu próprio repertório de experiências de vida?
O meu contexto de vida não foi, nem de perto nem de longe, tão extremo como o da Helena, portanto ela conta com algumas estratégias que eu não possuía. Embora possa reconhecer muitas plantas silvestres e saiba que partes são aptas para
consumo e como cozinhá-las, nunca cacei nem pesquei nem montei armadilhas: a nossa carne vinha de um supermercado.
Dito isto, consigo fazer umas bolachas ótimas numa frigideira de ferro com patas sobre um fogão a lenha e sei como aproveitar ao máximo um único balde de água. (Passo um: use água quente, fresca e limpa para enxaguar a louça. Passo dois: utilize essa água, ainda morna e com sabão, para lavar o chão. Passo três: use a água suja do balde da esfregona para regar as plantas ou o jardim).

 
Quanto tempo viveu na Península Superior antes de voltar à «civilização»?
Porque é que voltou?
O meu marido e eu vivemos na Península Superior durante 30 anos.
Voltámos para a região de Detroit quando os nossos filhos estavam a ficar
mais velhos, para que pudessem ter mais oportunidades educativas e
profissionais; também para podermos estar mais perto dos nossos pais, que
estavam a envelhecer.
Há momentos em que tenho muitas saudades da Península Superior,
embora não me arrependa nada de ter deixado para trás aquela neve e aquele
frio!

 
O que a levou a escrever um romance contado do ponto de vista da filha fruto da união de uma vítima de rapto e do seu raptor?
Sempre me intrigaram as pessoas que sobrevivem a uma infância que está longe de ser perfeita e, sem dúvida, a situação de uma menina que nasce de uma mulher raptada e do seu raptor é extrema. Assim sendo, não decidi conscientemente
contar a história de uma mulher assim; pelo contrário, acordei a meio da noite com as primeiras frases de A FILHA DO PÂNTANO completamente formadas na cabeça. Não estava a sonhar com a personagem, ela simplesmente estava ali, a falar-me.
As ideias que surgem a meio da noite nem sempre parecem tão maravilhosas de manhã, mas, neste caso, não foi isso que aconteceu. Por isso, escrevi alguns parágrafos com a voz dela, como se ela me estivesse a contar quem era. Esses
parágrafos, agora, fazem parte da primeira página do romance.

 
Disse que a personagem lhe surgiu antes do argumento. Pode falar-nos um pouco sobre o processo criativo desta história a partir da fabulação?
Ao longo dos dias seguintes, como a personagem continuava a falar comigo, continuei a escrever fragmentos utilizando a sua voz: o que implicou para ela crescer ali, os sentimentos que nutria pelo pai e pela mãe, a forma como imaginava a
mãe em trabalho de parto numa cabana remota, tendo como única ajuda o seu raptor, e esse tipo de coisas.
Pouco tempo depois, a personagem, ainda sem nome, tinha-me cativado tanto que decidi que precisava de encontrar uma história para ela. Gosto dos livros que transformam os contos, dando-lhes uma roupagem moderna, como The Snow
Child, de Eowyn Ivey, portanto, tirei as histórias da minha infância da estante e comecei a folheá-las. Quando descobri «A filha do rei do pântano», de Hans Christian Andersen, soube que este conto negro e complexo seria a espinha dorsal perfeita
para a história da Helena.

 
Que tipo de investigação realizou para conseguir colocar-se na mente da Helena?
Para construir a personagem da Helena baseei-me consideravelmente na minha relação com o meu próprio pai. Tal como acontece com a Helena, eu adorava o meu pai quando era pequena. Como é natural, ao crescer fui descobrindo os seus defeitos, embora isso não tenha diminuído o meu amor por ele, e era assim que queria representar a Helena. Sim, cresce numas circunstâncias terríveis; sim, o seu pai é, sem dúvida, um monstro. E, mesmo assim, durante algum tempo, antes de tudo se «desmoronar», usando as suas próprias palavras, tem uma infância realmente feliz.

 
A Helena tem uma relação complexa com o pai. Sofre de uma espécie de Síndrome de Estocolmo?
O pai da Helena é um narcisista, um egoísta que não merece o seu amor e, apesar disso, ela entrega-lho incondicionalmente. Ele, por sua vez, utiliza os interesses naturais da filha para a transformar numa versão em miniatura de si mesmo, pelo que, nesse sentido, tanto ela como a mãe vivem em cativeiro. E, contudo, ela não se sente assim, como também não sente qualquer tipo de privação: adora a sua vida no pântano, a caçar, a pescar e a procurar comida, e ama o pai, tal como qualquer outra criança.
Até crescer e começar a desenvolver a sua própria bússola moral, não questiona o que ele está a fazer. É isso que provoca que a sua situação seja tão dilacerante: o pai aproveitou-se do amor natural que qualquer criança sente pelo progenitor e
distorceu-o em proveito próprio.

 
O romance inspira-se no nome de uma fábula de Hans Christian Andersen. De que trata esse conto e que essência transmite ao romance?
«A filha do rei do pântano» é um dos contos mais extensos de Andersen; nele, a protagonista é a filha de uma bonita princesa egípcia e do malvado rei do pântano. Durante o dia, a filha é bonita como a mãe, embora tenha o temperamento malévolo e selvagem do pai; enquanto à noite, adota a natureza amável da mãe sob a aparência de um sapo horrendo.
No romance, a Helena também é o resultado de uma pessoa inocente e de um monstro, metade boa, metade má, e, tal como a filha do rei do pântano no conto, luta contra a sua dupla natureza.

 

 

A FILHA DO PÂNTANO de KAREN DIONNE _cover.jpg

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