Possuída pelo passado – Sara Flannery Murphy

35545884SINOPSE: Já todos perdemos alguém que amamos muito. E se, finalmente, for possível comunicar com o «outro lado»?

Edie trabalha há cinco anos na Sociedade Elisiana, uma empresa que fornece um serviço altamente exclusivo e especializado: os clientes podem comunicar com o espírito dos seus familiares mortos através dos corpos dos empregados. A jovem Edie é a melhor da sua equipa, sendo reconhecida pelo seu profissionalismo e discrição.

Porém, tudo muda quando Patrick contrata este serviço para falar com Sylvia, a sua falecida mulher. Edie passa cada vez mais tempo com ele, e acaba por se apaixonar pela vida do casal. Um fascínio que se torna uma incontrolável obsessão ao descobrir as misteriosas circunstâncias em que ocorreu a morte de Sylvia. As personalidades e histórias de Edie e Sylvia começam a diluir-se.

Depois de vários anos sem tempo para si, Edie quer apenas recomeçar tudo e ter uma vida nova. Mesmo que seja a de uma mulher morta.

OPINIÃO: A premissa deste livro interessou-me logo. Tenho um fraquinho pelo sobrenatural, o que não será novidade para quem segue este blogue.

Esperava encontrar uma história de fantasmas, mas acabei por entrar num enredo extremamente profundo, daqueles que mexem com perguntas existenciais e nos remetem a um silêncio humilde.

É possível perdermos-nos dentro de nós. Quem já esteve perto, ou mesmo dentro, de um estado depressivo conseguirá perceber de imediato qual é esta sensação. Porém, fui sufocada por um estado de espírito que não entendo, mas que me assustou por saber que é real e que há quem padeça da mesmo. A nossa protagonista desapareceu dentro de si mesma e já não sabe quem é. Edie sente-se invisível e confortável nessa posição. Há muito mais por detrás desta fachada de auto-domínio, calma e perfeição, e o que se descobre é ainda mais complexo, pois não nos dá uma resposta positiva, tal como acontece na vida real.

A profissão de Edie é estranha: ela incorpora os espíritos dos falecidos, para que estes possam comunicar com os entes queridos. A partir do momento em que se dá a possessão, Edie desaparece. A entidade ocupa o seu lugar dominante e durante uma hora (por vezes mais) o seu corpo não lhe pertence. As passagens das sessões vão apenas até esse ponto, uma vez que a história é contada na voz de Edie. É frustante! Acompanhamos as conversas que antecedem as sessões e as que se sucedem, mas não sabemos o que foi dito no entretanto, porque Edie não estava lá. Resta-nos especular muito, tendo por base o comportamento dos “clientes”.

Quando Edie se envolve demasiado na vida de um dos clientes, senti verdadeiramente pena dela. Há em Edie um vazio tão grande que qualquer sentimento lhe parece grandioso. Aquilo a que ela está disposta a abdicar e as suas atitudes sem amor-próprio entristeceram-me. Não compreendo o que é desejar a vida dos outros na totalidade, mas tenho consciência de que há quem anseie mudar de pele.

A escrita é cuidada e muito floreada. A autora parece ter procurado tocar no íntimo dos leitores revestindo a narrativa de metáforas. Chega a ter frases verdadeiramente poéticas. Pessoalmente, prefiro quando a escrita não se torna demasiado rebuscada no uso excessivo da chamada “purple prose”. No entanto, admito que há partes dignas de serem sublinhas e citadas.

Quanto ao enredo de Sylvia, serve para desanuviar da pressão do mundo vazio de Edie, deixando-nos respirar e assistir a alguma ação, uma vez que nos leva a raciocinar sobre o que terá realmente acontecido à esposa de Patrick. Além do misterioso acidente que tirou a vida a Sylvia, também surge um outro enredo que ganha preponderância e será decisivo para as tomadas de decisão que fecharão a história: o caso da Hopeful Doe.

É um livro interessante, que explora as etapas do luto, a resistência em deixar os mortos partirem, seja por amor, amizade ou até mesmo culpa; e as doenças mentais e as suas limitações. Fala acerca da força interior que oscila, quando o obstáculo é invisível aos olhos. Leva os leitores a refletir sobre a vida e a morte e obriga-o a compreender que há lutas que, apesar de não serem físicas, não deixam de ser extremamente difíceis de enfrentar.

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