O que viram as flores – Julia Heaberlin

transferirSINOPSE: Sou estrela de cabeçalhos de jornal e de histórias assustadoras à roda da fogueira. Sou uma das quatro raparigas das susanas-de-olhos negros. A que teve sorte. Aos 16 anos, Tessa foi encontrada num campo do Texas, quase morta e só com alguns fragmentos de memória em relação à sua chegada ali. A imprensa chama-lhe a única «rapariga das susanas-de-olhos negros» que sobreviveu a um serial killer. O testemunho de Tessa mandou um homem para o corredor da morte.

Passados 20 anos, Tessa é artista e mãe solteira. Num dia de fevereiro, abre a janela do seu quarto e depara com um magnífico canteiro de susanas-de-olhos-negros diante de si, embora se trate de flores de verão. Será que o homem que espera a morte é inocente? E andará o serial killer atrás dela? Ou, pior ainda, da sua filha?

OPINIÃO: É assim que eu quero ser. É a estes autores que eu faço a vénia, que têm verdadeira paixão na arte de criar histórias, de construir “pessoas”.

Estou maravilhada com a composição minuciosa do enredo. Deslumbrou-me a perícia com que a autora interligou os pormenores com o desfecho. Estou ainda mais “invejosa” pela coragem e determinação que ela investiu numa investigação em torno dos temas da história.

Escrever é aprender, é procurar, é trazer ao leitor informações. Com este livro aprendi muita coisa: desde os avanços da tecnologia forense, a realidade do sistema jurídico do Texas; anotei nome de autores a investigar; conheci histórias de serial killers e de casos bicudos dos EUA; percorri o dia-a-dia de um sítio com características muito próprias (um pouco medievais, diga-se), que é o estado do Texas, que me fascina desde que me lembre.

Senti a dor e o medo de Tessa, a excentricidade de Lydia, identifiquei-me, num futuro próximo pessoal (a medo) com a angústia do advogado, Bill. São pessoas, e não simples personagens, trabalhadas, providas de sonhos, ambições, qualidades e fraquezas.

Refleti sobre a pena de morte e voltei a não chegar a nenhuma conclusão, a não ser de que deve ser, nos países que acolhem esta medida, a ultima ratio. Voltei a sentir-me desacreditada pelo sistema de jurados e, ao mesmo tempo, aliviada por não o usarmos em Portugal.

A escrita não é fluida, é muito floreada. Há um uso elevado e bem conseguido de figuras de estilo que a enriquecem. O único senão foi o de terem dificultado a entrada na narrativa. Depois de familiarizada, fui deliciada com a mestria das palavras que eram escolhidas para qualificar as emoções de Tessa.

A história revela-se pouco a pouco, com muitas rasteiras e armadilhas. Adoro ser enganada e desafiada, pelo que não poderia deixar de aplaudir o desfecho que não adivinhei, nem lá perto bati.

O entedo em torno de Lydia foi o que mais me prendeu. A sua personalidade excêntrica, a sua ausência, desde o início, muito mal explicada (ou nada), previa trazer uma surpresa. Não desiludiu.

Há um toque de loucura e de crueldade que me cativou. A audácia da autora nas descrições, a força que ela emprega no sentimento de desamparo, o toque místico e leve d’”as minhas Susanas” e d’”o meu monstro” e o receio da incompreensão de uma sociedade que adora rotular, são alguns dos motivos que me levarão a aconselhar este livro a outros leitores, que gostam de leituras carregadas de tensão.

As Susanas-de-olhos-negros são flores que jamais verei com os mesmos olhos.

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