Veneza pode esperar -diário 1 – Rita Ferro

SINOPSE: São raríssimas as autoras portuguesas que abrem a porta da sua intimidade aos leitores. Ao fim de duas dezenas de títulos, Rita Ferro corre esse risco oferecendo-nos a narrativa diária de alguns meses da sua vida, sem artifícios literários, num dos períodos mais sombrios e no rescaldo de perdas nucleares: o maior amigo, a casa onde investiu todas as economias, a mãe, o afastamento daquele que pode ter sido o seu grande amor.
Veneza Pode Esperar é o balanço autobiográfico de uma pósfeminista pragmática, mas aberta ao mistério, às voltas com o malestar contemporâneo, ao longo de 240 páginas tonalizadas pelo humor, a auto-ironia e a amarga lucidez de quem sabe perder, onde o presente se confunde com a memória e a escritora com uma das suas personagens.
Trata-se do primeiro volume de um diário íntimo, coleccionável como um folhetim, sem happy end nem beijos ao pôr do Sol.

OPINIÃO: Este livro é para ser lido com um marcador na mão. Há passagens muito interessantes e que parecem exigir uma dupla atenção da parte do leitor para refletir. Funcionam como campainhas, tilintam no cérebro e demandam uma ação sobre tais palavras.

Quem acompanha a página de facebook do blogue, pode acompanhar as minhas leituras e, assim, encontrar algumas das frases que filtrei deste diário. A minha leitura deu-se em formato ebook, logo foi-me muito facilitada a tarefa de selecionar o que me levava a abrir um pouco mais os olhos.

Foi a minha estreia com Rita Ferro e tal só aconteceu devido ao Clube de Leitura que frequento, sob proposta de um dos membros.

Confesso, franzi o nariz e iniciei a leitura com enfado. Eu não gosto de blábláblá. Sou amante de histórias com reviravoltas, suspense… Não encontro qualquer interesse em acompanhar a vida de uma escritora no seu dia a dia. Sinceramente, conheço gente que faria uns diários bem mais profundos, se não carecessem do dom da escrita.

Sim, Rita, discordo consigo que não acredita que haja na escrita um dom inato. Pode não surgir à “nascença” na sua plenitude, mas a semente está lá. Concordo que tem de ser aperfeiçoado, cultivado… Mas e o que torna a escrita tão especial, onde fica no meio dessa formação? Refiro-me, pois claro, à voz! Aquela voz que identificamos ao ler um autor que gostamos, como se estivesse, de facto, a ler-nos o texto, mesmo sem nunca termos ouvido a voz do escritor. Essa capacidade de expressão por palavras está cá dentro e não pertence a todos. Uns para a música, como o seu amigo pianista, e outros para a palavra escrita.

Impossível não reconhecer que Rita Ferro tem o dom da palavra escrita. Ela escreve bem. Não há outra forma de o dizer. Só não me identifiquei com o formato que nos traz aqui.

Umas vezes, adorei-a. Depois, irritava-me sobremaneira. Deu-me a entender que Rita realmente acredita que vive uma vida normal! Ela fala de dívidas, mas também declina propostas de trabalho que “pagam pouco”. Refere-se constantemente a viagens pelo mundo, objetos exponencialmente caros e de umas quantas futilidades. No entanto, tem um lado humano que aceitei como o de alguém que pensa muito. Neste ponto, identifico-me, pois, ao contrário dos personagens de uma ficção, a “pessoa” não é sempre coerente com o que pensa e muda de opinião, sentimento, resposta, inúmeras vezes.

Rita apresenta uma passividade (?) face a algumas situações com que é confrontada. Expõe a amizade que mantém com o ex-marido, o único ser que parece amar realmente (além dos netos). A tranquilidade com que se refere ao divórcio, não condiz com o tom com que avança nas passagens sobre Bernardo. Não há ressentimento, mas uma tristeza patente na solidão com que encara a vida sem ele.

Perdoe-me, Rita, se a analiso como se de uma personagem se tratasse. Contudo, não poderá levar a mal que sejam tecidas algumas divagações acerca da sua vida, pois, a mesma terá sido exposta por si neste diário. E como o fez de forma pouco detalhada, sem entrar em pormenores, é impossível que o leitor não tente preencher essas lacunas.

Para finalizar (não sou adepta de textos imensos na internet), como adorei a escrita da autora, procurei adquirir outras obras da mesma. Acredito que com a dose certa de imaginação, esta senhora conquistaria uma legião ainda maior de leitores.

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