Eterna Saudade – Lia Habel

SINOPSE: No ano 2195, em Nova Vitória (uma nação altamente tecnológica baseada nas maneiras, na moral e na moda da antiga era), uma jovem da alta sociedade, Nora Dearly, está mais interessada na história militar e nos conflitos políticos do país do que nos chás e bailes de debutantes. Contudo, após a morte dos pais, Nora fica à mercê da autoritária tia, uma mulher interesseira e esbanjadora que desperdiçou a fortuna familiar e agora pretende casar a sobrinha por dinheiro. Para Nora, nenhum destino poderia ser pior – até que sofre uma tentativa de sequestro por parte de um grupo de mortos-vivos. 
Isto é apenas o início. Arrancada do mundo civilizado, vê-se subitamente numa nova realidade que partilha com zombies devoradores, misteriosas tropas vestidas de preto e «O Lázaro», um vírus fatal que ressuscita os mortos tornando o mundo num inferno.

OPINIÃO: Uma agradabilíssima surpresa, sem dúvida!
Comecei a ler “Eterna saudade” com um pé atrás. Custava-me entender uma história de amor entre um ser humano e um zombie, mas parece que Lia Habel conseguiu transformar estas criaturas em estado de deterioração em homens desejáveis pelas suas qualidades interiores.
Relaciono esta estratégia de moldar o horrível ao belo com histórias clássicas como o corcunda de Notre Dame e a Bela e o Montro, cingindo-se mais à última uma vez que explora uma relação romântica.
Outra particularidade interessante é a junção dos espaços históricos. Aqui, temos um plano futurista dotado das melhores tecnologias e facilidades em junção com a época vitoriana com todo o seu esplendor e conceitos absolutistas camuflados pela beleza da etiqueta e da indumentária rica. 
No que toca à problemática da praga dos mortos vivos, a autora teve o cuidado de utilizar o termo Lázaro, o nome cientifico escolhido pelos grandes nomes da ficção científica que provém da passagem bíblica com o mesmo nome; aquele que ressuscitou.
A nível técnico, a escrita é fluída com alternâncias entre termos modernos com a linguagem requintada dos meados do século XIX. Sob este vocabulário que se cinge na direção da terceira pessoa, é hilariante ver os trechos de humor sarcástico e irónico, chegando a roçar o humor negro que funciona na perfeição tendo em conta o contexto.
Nora abraça a nova tendência de protagonistas femininas. O regresso é mulher independente. É corajosa, irreverente, rebelde e demasiado inteligente para o que se pede de uma mulher. Faz lembrar a clássica personagem da obra de Jane Austen “Orgulho e Preconceito”, Elizabeth Bennet. O que não deve ser ao acaso.

Nora é raptada. Tirada assim do seu lar – que pouco se pode chamar de tal agora que o pai faleceu e a tia tenta subir rapidamente de estatuto através do único meio possível para o sexo feminino, o casamento – é levada para uma base habitada sobretudo por zombies. 
Coexistir com os mortos irá levá-la a ver o mundo para além das aparências e a conhecer alguns segredos sobre si mesma.
Bram fica logo encarregado de cuidar da adaptação de Nora e é neste contexto que ambos começam a descobrir sentimentos que pensavam não ter, ou que não deveriam sentir. Especialmente um pelo outro dadas as suas diferenças. Tipo, um respira e o outro não.
O panorama politico e bélico é a outra temática central do enredo. A adoção da era vitoriana não agradou a todos e assim surgiram os grupos rebeldes designados por punks. 
Bram era um punk e Nora uma vitoriana. Uma mistura de classes e ideais que remete instantaneamente a outros clássicos.
Em geral, “Eterna saudade” é um bom livro. Carregado de ação em sintonia com a comédia e o interesse tanto épico como futurista. Complementa um leque de tópicos para agradar a um número alargado de leitores.


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