Entrevista a Célia Correia Loureiro



1. Fala-nos um pouco sobre ti.
Nunca sei ao certo o que possa dizer sobre bem que tenha importância para a minha escrita… mas talvez possa começar pelo facto de gostar, verdadeiramente, de percepcionar o mundo e as pessoas ao meu redor. Sou observadora e a minha imaginação é tanto uma cruz quanto uma benesse. Sempre gostei muito da companhia dos mais velhos, e foi da boca deles que ouvi as melhores histórias até hoje. Gosto de contadores de histórias e gosto de pensar em mim como uma. Tenho óptimos amigos que me mantém de bom humor e considero-me optimista por natureza – o que é a minha safa, porque sou demasiado impaciente. Acredito que o objectivo da vida é somente um – a aprendizagem, e que isso é transversal à humanidade e ao tempo. E que, assim sendo, vivemos várias vidas e vamo-nos aperfeiçoando. Gosto de analisar as situações por um prisma intemporal, de despir as pessoas e os seus motivos e de ir ao fundo na sua condição de humanos. É isso, sobretudo as fraquezas e os pequenos triunfos, que dão alento à minha escrita. Tenho quatro irmãos mais novos que também me vão dando pano para mangas na hora de imaginar, e que são um dos motores do meu desenvolvimento pessoal. Depois adoro o nosso Portugal pitoresco, as aldeolas, as nuances na cultura, a nossa história, e é disso que me alimento na hora de criar algo. Gosto também de expôr o passado das pessoas como o motivo incontornável dos factos do presente e dos rumos para o futuro, como três espaços temporais intrincados e indissociáveis.

2. Agora sobre o teu livro.

O meu livro é passado na aldeia de onde parte da minha família paterna é originária, e foi escolhida porque conheço o seu ritmo e a sua mentalidade, mas também porque é um espelho da cultura beirã – casinhas de granito, lojas, uma vida ainda um pouco ruralizada, calçada empedrada, envelhecimento populacional, imigrantes e emigrantes. Paguei nela como cenário e é responsável por parte do enriquecimento da história, porque eu precisava mesmo de um meio fechado e conservador. A Letícia e a Olímpia, protagonistas, nasceram do meu desejo de mergulhar nestes dois temas: violência doméstica e Alzheimer. As outras personagens importantes são o Gabriel, que vive com alguns arrependimentos e pesos de consciência, o Sebastião, um velhinho sábio que vai constituir uma ponte entre as duas personagens principais e as filhas da Letícia, que são a visão inocente, simultaneamente, nua de preconceitos, das situações.


3. De onde surgiu a idéia para esta história?
Antes de mais gostaria de deixar claras algumas coisas quanto ao livro e ao meu modo de escrever: o que escrevo não é um espelho de quem sou, nem das minhas crenças, nem da minha experiência de vida, embora acabe por espelhar parte disso. Não partiu de nenhuma experiência pessoal ou próxima de violência doméstica, mas talvez da minha veia feminista e de considerar um ultraje que os homens se prestem a esse papel de monstros. Creio que, embora actualmente também já existam homens vítimas do mesmo mal, sendo a mulher a vítima é pior ainda porque estamos perante uma situação em que a força dela é subjugada. E quando o homem está num meio fechado ou tem amigos nas autoridades (como alguns casos de que tive conhecimento) é ainda mais complicado conseguir que se faça justiça contra ele. A outra temática destacada é o Alzheimer e como torna os seus doentes vulneráveis. A minha bisavó sofria de Alzheimer, mas confesso que não me inspirei nela para criar a Olímpia (que por sua vez foi baptizada com o nome da outra bisavó). Simplesmente quis passar para as páginas de um romance o assombro que sentia a cada vez que a minha bisavó dizia algo de absurdo ou surreal, derivado da perda de memória. Como o Alzheimer tem características hereditárias, tornou-se rapidamente naquela doença que eu nunca queria ter e, desse modo, a Olímpia surge desse receio de vir a morrer sem me recordar do que fui. De onde surgiu a ideia geral? É complicado… tinha estes dois temas e estas duas personagens e arranjei forma de as juntas no mesmo enredo. Além do mais, já me passeavam na cabeça há alguns anos…

4. Já tens projetos futuros? Pretendes manter o mesmo género? Podes dar-nos uma luz do que virá?
Deixar de escrever não é possível. Estou sempre embrenhada nalguma espécie de transe (geralmente acompanhado de música) que me transporta para lugares onde não estou e para épocas em que não vivi. Neste momento estou a terminar um novo romance, “O Funeral da Nossa Mãe”. Tenho outros projectos, sim. Estou a pensar em começar a escrever contos infantis. Creio que as minhas irmãs eram capazes de me ajudar nisso… Estou também a pensar em investir em livros mais pequenos, que não somente romances, com mensagens e lições de vida pertinentes. É algum pretensiosimo da minha parte achar que, aos 22 anos, possa ensinar alguma coisa a alguém… se não puder, ao menos espero poder expôr a minha visão, válida ou não.

5. O que pensas da literatura portuguesa? Costumas ler? Achas importante apostar no que é nacional?
Eu adoro ler mas confesso que a literatura portuguesa não é a minha favorita. Acabo por ser mais crítica quando sei que o autor escreveu, de facto, as linhas que estou a ler. Em livros traduzidos culpo o tradutor. Mas já li José Luís Peixoto – tem trechos que são verdadeiras obras primas quase poéticas, mas depois dispersa-se um bocado, na minha opinião. Acho que tem mais poder descritivo do que narrativo, o que para mim significa que mergulho nas palavras dele mas não nas histórias que conta. Já li vários do José Rodrigues dos Santos e gabo-lhe o trabalho de pesquisa e a imaginação, mas não a narrativa, que é informativa e jornalística. Já li alguns da Margarida Rebelo Pinto – lamento que passe a ideia de que as mulheres são farrapos humanos numa tentativa vã de serem amadas e que o amor é tão volúvel como ela sugere. Já li Tiago Rebelo e vi-lhe algumas qualidades, embora não tenha ficado louca por reler. Já li Margarida Pedroso, Sophia de Mello Breyner, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Saramago, Luísa Castelo Branco e confesso que, daqui, destaco a imaginação riquíssima e sem par do nosso Nobel e a escrita nua e irónica do Camilo e o sentido de humor de Eça, mas não são autores a que recorra quando estou com o bichinho da leitura. Adorei o primeiro romance da Luísa Castelo Branco e foi a única escritora portuguesa que, até hoje, me fez sorrir e chorar perante a literatura nacional. Recentemente descobri “Um Amor Sem Tempo” do Carlos Machado que tenciono ler mas, pelo excerto disponibilizado pela autora, o palavreado é pretensiosamente rico e o enredo é cliché. Contudo sim, com é óbvio, aposte-se no que é nacional porque há alguns nomes de qualidade.

6. Autores que te inspiram:
Para escrever? Nenhum. Para viver e sonhar e aprender? Margarett Mitchel tirou-me o tapete debaixo dos pés: ninguém pode alcançar aquele nível de escrita. É perfeito o seu “E Tudo o Vento Levou”. Anita Shreve tem uma sensibilidade sem igual. Sherry Thomas é, para mim, a rainha do romance. Jane Austen conseguiu impregnar livros de linguagem inocente com paixão contida. Ian McEwan é profundo e perfeito nos enredos que cria. Rani Manicka faz-me desejar conseguir expor a cultura ocidental tão bem quanto ela apresenta a oriental. Isabel Allende e Laura Esquível introduzem surrealismo nos livros sem lhes roubar o crédito. Louise May Alcott fala de intimidade familiar como ninguém, Dostoievsky e Nabokov juntam-se a Henry Miller para apresentar as camadas obscuras da natureza humana. Alice Walker com A Cor Púrpura fala de um tipo de submissão invulgarmente digna e da pureza da ingenuidade. E a J.K. Rowling deu-me a convicção de que, através da escrita, pode criar-se outros mundos com contornos reais totalmente saídos da cabeça do escritor que, assim, toma o papel de um arquitecto.

7. Livros:
E Tudo o Vento Levou, A Praia do Destino, A Cor Púrpura, Expiação, Lolita, Chocolate, Perfume, Madame Bovary (que mulher odiosa!), O Sétimo Selo e a Fórmula de Deus (pelo debate).

8. Filmes: 
E Tudo o Vento Levou, Ágora, Incendies, In Bruges, A Bela e o Monstro, Orgulho e Preconceito (2005), Amélie, Anjos e Demónios, Um Longo Domingo de Noivado, Mar Adentro, Cinema Paradiso e La Vita è Bella 

9. Apelos ou agradecimentos que queiras deixar:
Agradecimentos… à editora, que se interessou pela obra e que a levou até vocês. Aos meus amigos, que são o meu maior tesouro. Aos meus irmãos, que adoro.

10. O que achas do blog d311nh4? 

Confesso que não costumo acompanhá-lo muito… as entradas a que acedo dizem respeito a críticas literárias de livros que tenho interesse em ler mas, felizmente (porque também na cultura tem que haver variedade de gostos) eu e a administradora do blogue, colega de “profissão”, não temos muitas leituras em comum. No entanto as críticas que li são bem fundamentadas e objectivas, o que dá credibilidade ao blogue.

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